Por Carolina Altarejo

Em uma indústria que se vende pela aparência, o diálogo sobre inclusão está obsoleto, o que torna o fato de convivermos com a falta de representatividade incoerente. Porém, os estereótipos na moda ainda são cultuados como perfeição, e a questão é que essa ideia abrange apenas a minoria, enquanto o restante não se reconhece na maior parte das campanhas.

A indústria da moda é uma das mais poderosas do mundo em questão de impacto. Ela tem acesso a uma riqueza de diversidade, um alcance distante e, portanto, uma oportunidade para impulsionar a todos a democratização. Por isso, o reconhecimento desse poder atrelado à tomada de consciência é primordial.

Grandes membros do mercado respondem a esse cenário. Em janeiro deste ano, a CFDA (Coucil of Fashion Designers of America), associação dedicada a apoiar o crescimento da moda americana, divulgou o relatório “Insider/Outsider”, que descreve como a liderança das empresas exclui grupos historicamente desfavorecidos, como as minorias raciais, mulheres e toda a comunidade LGBTQ.

No estudo, a Gerente de Inclusão da Condé Nast, Erica Lovett, afirma que o atual estado de inclusão na moda é totalmente focado na visibilidade, mas que essa, por si só, não é a solução para promovê-la. Ela defende que a indústria deve expandir seus esforços para o ramo dos negócios e dar novas oportunidades, visto que a grande maioria de seus próprios líderes não são diversificados, o que se dá principalmente a essa cultura de mercado inacessível. Porém, esse quadro tende a mudar.

Grandes marcas como Prada e Dolce&Gabanna, que já foram acusadas de inúmeros tipos de preconceito, se conscientizaram com ações inclusivas. No início deste ano, a grife de Miuccia anunciou a criação do Conselho de Diversidade e Inclusão, com o objetivo de incentivar a diversidade dentro do grupo e elevar as vozes da moda em geral. Já Dolce&Gabanna, boicotada na China no ano passado em meio a acusações de racismo, apresentou sua coleção da temporada de verão 2019 com a passarela mais diversificada da Semana de Moda de Milão, que incluiu talentos de diferentes perfis como a canadense Maye Musk, de 70 anos, a modelo plus size Ashley Graham e a família completa de Isabella Rosselini. Em nota, Domenico Dolce afirmou: “A moda não veste só modelos, ela veste diferentes tipos de pessoas”.

Isabella Rosselini e família – Dolce & Gabbana Spring 2019

O momento é crucial para a indústria da moda, que vê as referências do luxo entrarem em conflito com os padrões de consumo em relação à inclusão. A Z conversou com o Luiz Filho, idealizador da primeira agência de modelos do Brasil focada na diversidade de perfis, a Luizfilho Models, para trazer uma nova perspectiva sobre esse cenário. Acompanhe:

  • Qual foi seu ponto de partida para criar uma agência focada em diversidade?

Meu ponto de partida veio da falta de representatividade que eu sentia. Iniciei minha carreira como fotógrafo de moda em 2005, sempre trabalhei em agências de modelos e nunca me vi representado. Anos se passavam e isso não mudava, então iniciei vários projetos fotográficos ao longo do tempo, focados em dar oportunidade para que outros perfis tivessem uma produção digna de capa de revista.

Com o crescimento desse trabalho, as marcas começaram a nos olhar. Foi aí que nasceu a Luizfilho Models e hoje somos a primeira agência de modelos do Brasil a trabalhar a linguagem da moda e diversidade, nosso segmento freestyle.

  • Grandes grifes, como Dolce & Gabanna e Prada, passaram a incluir a diversidade em suas passarelas. É uma inspiração para as outras marcas?

Sem dúvida que sim! Diversidade é representatividade. Hoje, uma boa porcentagem do mercado já observa o retorno financeiro de sua marca/produto se o cliente se vê representado nela. Essa percepção veio muito forte também devido a força dos influencers, que são a pura representatividade da maneira que ela realmente é, e isso fortaleceu bastante o posicionamento do público. Grandes marcas já estão representando melhor seus públicos devido a essas estatísticas. Sobre a passarela, sim, é uma forte tendência. Aqui no Brasil tendemos a observar positivamente tudo que se faz no mercado internacional. A Dolce & Gabanna ter tido essa iniciativa vai fazer com que marcas de Alta Costura revejam seu método de passarela e posicionamento.

LUIZ FILHO

 “Diversidade é representatividade”

Como você acha que será o futuro das agências de modelo?

O futuro é representatividade, fato! O mercado já está solicitando perfis variados. As agências terão uma grande mudança nos métodos de trabalho e seleção de modelos. Porém, ser modelo é realmente uma profissão que exige dedicação, estudo e capacitação, fatores que continuarão sendo essenciais para uma carreira consolidada e profissional.

Com a representatividade na ponta da língua, a meta agora é erradicar o viés inconsciente. Algumas luzes no fim do túnel já são avistadas como sinais positivos dessa mudança, parte de nós acendermos mais.