João Braga explica o cenário da moda pós-pandemia

Como fatos da humanidade contribuem para analisar os rumos dessa indústria depois do covid-19

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jOÃO BRAGA
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Por Raíssa Zogbi
O colapso da saúde mundial causado pelo covid-19, o novo Coronavírus, que já dispensa comentários e entra para a história como o maior desafio dos últimos cem anos, afeta diretamente a economia globalizada e local. Mas, e a moda? Ela também será afetada em proporções que ainda não conhecemos. Sendo uma das indústrias mais poderosas e que mais gera empregos ao redor do mundo, será que ela está parada perante o cenário que vivemos? É tempo para temer ou, talvez, conhecer uma nova forma de produção e consumo?

Encontramos no professor e pesquisador de História da Moda, João Braga, que nos concedeu essa entrevista, um olhar profundo que nos convidou a ir além das notícias da TV, tão difíceis de serem equalizadas. De acordo com ele, “normalmente, excessos são sinônimos de decadência”.

Em uma reflexão complexa de alguém que domina o conhecimento e estuda o passado, além de partilhar uma elegância e simpatia particulares, João Braga afirma: “A história não se repete, mas nos ensina porque lida com a tríade: passado, presente e futuro. Conhecemos o passado, entendemos o presente, para planejar e projetar um futuro melhor. Tudo que já aconteceu historicamente tem influência no agora”.

1) O cenário é o covid-19 com suas mudanças drásticas na saúde e economia do mundo. Na sua opinião, quais os impactos diretos e indiretos na moda?

O cenário atual já impacta a moda, assim como todos os outros segmentos. Na história, normalmente excessos são sinônimos de decadência: eles denunciam uma decadência do que quer que seja e de algo novo que há de vir, como os excessos da corte francesa que acabaram com a monarquia ou dos imperadores romanos que destruíram o Império Romano. Os excessos dos nossos tempos dizem respeito a consumo e ao fato de que as pessoas querem ter direitos, mas esquecem dos deveres. E isso é prenúncio de que há necessidade de uma mudança de acordo com uma ótica histórica. O que eu acho que pode vir como possibilidade de mudança é uma nova forma de consumo, que inclusive vai gerar uma nova forma de produção. E essa realidade vem acompanhada de criatividade. Hoje, vemos coisas criativas, curiosíssimas, interesses atípicos e, muitas vezes, mais conceituais do que, de fato, comercial e usável. Essas crises, historicamente falando, fazem você retornar para uma referência mais clássica e tradicional. Talvez convivamos com isso novamente para até, depois de passar a tempestade, encontrar um novo direcionamento com um novo padrão.

2) Em outros momentos da história, após períodos sombrios como de guerras e doenças, nota-se um retorno da moda ao clássico. Isso pode ser aplicado agora?

Acredito que vá haver essa possibilidade sim de resgate ao clássico, ao romantismo, dessa alegria do uso das cores e estamparias. Se voltarmos a essas grandes crises, pelo menos do século 20, como a Primeira Guerra Mundial, houve uma mudança considerável principalmente no comportamento, porque a mulher precisou trabalhar e deixou de usar os espartilhos, as saias encurtadas, para ter maior praticidade na forma de se vestir. A Segunda Guerra Mundial trouxe uma devastação total e a masculinização da roupa feminina. Na sequência, Dior resgatou a feminilidade. A Guerra do Vietnã teve como consequência o movimento hippie, com posturas e atitudes completamente diferentes. São mudanças que trazem certa alegria de viver e um novo tempo, depois de momentos turbulentos. O colorido, que traz vida não só pela simbologia das cores, mas também pela ação físico-química das cores nos nossos olhos, há de ser uma possibilidade sim. O uso de acessórios há de ficar mais intenso, porque traz uma cara nova e é mais econômico. A história não vai se repetir, mas podemos notar um direcionamento semelhante.

3) Como as marcas reagiam a crises como essa no passado? E hoje?

Entre os séculos 20 e 21, não havia tantas marcas como temos agora. Após a Primeira Guerra, por exemplo, vemos uma praticidade na vestimenta da Chanel como reação ao período. Na Segunda Guerra, tivemos a versatilidade da Dior, muito voltada para a alta- costura, para um setor mais elitizado. As grandes marcas que definem o que vem a ser moda atualmente pertencem a grandes grupos econômicos, ou seja, estão por trás de estratégias associadas à economia e ao sistema capitalista. Independente disso, essas marcas também tem ações de benevolência. São ações verdadeiras, mas servem também como estratégia de marketing. Até mesmo no Brasil, temos marcas que tentam vender os seus produtos dando uma porcentagem para uma ação social e isso facilita o convencimento do consumidor. Ter uma ação social é uma característica da cultura contemporânea, da realidade da empatia, de você sentir o que o outro está sentindo e se sensibilizar com aquilo. Na linguagem espiritual não deveria ser assim, porque como é dito “a sua mão direita não deve saber o que a sua mão esquerda faz”. Ou seja, a caridade precisa ser feita no silêncio, ela não precisa ser colocada aos sete cantos.

4) Caminharemos mais rápido para o slow fashion?

Eu creio que sim, porque o momento vai afetar a própria produção industrializada. A palavra sustentabilidade está apoiada em quatro pilares: eco ambiental, social, econômico e cultural. E isso tudo depende de uma política pública ou de uma iniciativa privada. A moda já caminha pela sustentabilidade, pela preservação do planeta. No paradoxo contemporâneo, ao mesmo tempo nós temos barroquismos e minimalismos, tecidos sintéticos e de fibra natural, excessos visuais e propostas mais clássicas. Além disso, vivemos, também, o paradoxo do fast fashion, que contribuiu para uma socialização e consumo maior da moda, mas que em compensação traz problemas consideráveis.

O slow fashion é uma realidade muito Brasil, com a valorização dos nossos bordados, das nossas rendas, do trabalho em couro. Essa realidade vem com uma característica de diferenciação, porque no slow fashion existe alma no produto, por ser individualizado, feito à mão, e até ter energia. Isso que está acontecendo é um alerta para que mudemos aquilo que era tido como normal, mas que de fato não era normal.

5) Se pensarmos no passado, sabemos que a moda dos anos 60 e 70 tem características marcantes. No futuro teremos como definir a moda de hoje?

Creio que sim, mas de uma maneira diferente. A década de 80 já não traz uma única identidade visual. Acontece uma propulsão de tribos. Na década de 90, todas essas possibilidades se misturaram e a falta de identidade passa a ser a própria identidade. Uma das características do nosso tempo é essa mistura total de, inclusive, revisitar outros tempos do passado. Eu acho que vai ser marcada, especificamente, pela linguagem visual, artes gráficas, artes visuais desse nosso tempo e pela tipografia.

Compartilhe a entrevista do João Braga para a Z Magazine.

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