a despedida de Jean Paul GaultierÉ possível enxergar a Alta-Costura sobre a ótica da diversidade? E da sustentabilidade? Diante de um sistema de produção artesanal de luxo destinada para cerca de apenas 4 mil clientes no mundo e que conta com uma série de exigências e preserva os padrões da cultura francesa de moda, a despedida de Jean Paul Gaultier revoluciona o conceito “Haute-Couture” e abre espaço para uma moda mais consciente. “Esta noite você testemunhará minha primeira coleção de Alta-Costura reciclada”, anunciou o estilista francês. Sim: RE-CI-CLA-DA!

E foi dessa forma que, no dia 22 de janeiro, Jean Paul Gaultier se despediu das passarelas em comemoração aos seus 50 anos de carreira com o “Enfant Terrible”, um show emocionante e épico no Théâtre du Châtelet, em Paris e que faz referência ao seu apelido (“criança terrível”, em português). Foram mais de 200 looks com roupas recicladas de seu arquivo e um casting poderoso que contou com Gigi e Bella Hadid, Karlie Kloss, Winnie Harlow e Irina Shayk. “Quando era pequeno, minha mãe costumava me contar como consertava as calças gastas de meu pai e fazia saias com elas. Essa história me marcou. Você pode amar uma peça de roupa mais uma vez, se a transformar em algo novo! É o que faço desde o meu primeiro desfile, especialmente com jeans”, contou. Conheça mais sobre sua história.

Trajetória Gaultier

O apelido faz ainda mais sentido quando se mergulha na história de Jean Paul, que desde pequeno, mostrava habilidades ao produzir acessórios com elementos que encontrava no lixo. Responsável por levantar a discussão sobre o limiar entre o bom e o mau gosto de forma subversiva, chegou a enviar  seus desenhos para os estilistas e, no dia do seu aniversário de 18 anos, em 24 de abril de 1970, recebeu um contato da Maison Pierre Cardin. Eis que conquistou seu primeiro emprego com um dos mais importantes criadores da época.

Em 1976, Gaultier apresentou sua primeira coleção, a “Bric et Broc”, composta por roupas feitas de tapetes, ráfia e tutus de bailarina debaixo de críticas que, em pouco tempo deram espaço a disputas por suas peças. Até que em 1977 inaugurou sua própria maison, que desde o início carregou em seu DNA o estilo irreverente com referências do movimento punk londrino. Entendem o “criança terrível”? Gaultier ia na contra mão das tendências parisienses e logo conquistou o público com seu estilo rebelde e sexy, que seduzia tanto a garota do subúrbio quanto a burguesa.

O estilista ungido por ninguém menos do que Madonna surpreendeu ao desfilar uma lingerie a mostra na década de 80, quando também eternizou um de seus ícones de moda masculina: a camiseta de marinheiro. Além disso, ousou ao dobrar túnicas e minissaias e enfeitar em uma proposta que misturava Europa com África e criar modelos de sia para homens inspiradas no kilt, o traje típico dos escoceses.

O último desfile

Ao som de “Back to Black”, o “Enfant Terrible” teve início com uma modelo saindo de um caixão. Foram nada menos do que uma hora e meia de show, em que o estilista revisitou suas fases e clássicos que marcaram época, como a produção de “Like a Virgin”, de Madonna. As 200 criações foram resultado de sobras de peças produzidas nos 50 anos de design da marca, em que fragmentos de couro recortados encontraram a alfaiataria em uma coleção ousada e vanguardista, com direito a remendos e montagens. Para os pés, contou com as criações do amigo Christian Louboutin, que apresentou desde scarpins clássico até coturnos vermelhos.

Como não poderia deixar de ser, o estilista desafiou o tradicional da Haute Couture e, ao invés de apresentar sua noiva no encerramento do desfile, fechou com um look all black extravagante, vestido por Irina Shayk.

Obrigado, Gaultier! Por ser um dos primeiros a questionar padrões, criar novas possibilidades para uma moda que recicla e recria e, claro, sempre explorar a diversidade nas passarelas, retratada com maestria em sua despedida. “Adeus ao novo formidável, olá para o formidável… antigo? O que eu fazia no passado, quando não tinha recursos, agora faço com minha biblioteca pessoal de designs de alta-costura, para poder dar vida a novas criações.  A beleza está em toda parte quando você sabe como olhar. E assim vai ser, com novas aventuras pela frente. Acredite, o melhor ainda está por vir!”, proclamou. Mal podemos esperar, Gaultier!

a despedida de Jean Paul Gaultier
Photo by Stephane Cardinale – Corbis/Corbis via Getty Images)

 

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