O cenário pandêmico potencializou questões que já estavam em debate e colocou a moda nacional para repensar propósitos, revisitar ideais e traçar novos rumos, mais conscientes e humanos. Nesse contexto, surge a marca soteropolitana Ateliê Mão de Mãe, que estreou na edição N51 da SPFW por meio do projeto Sankofa e trouxe toda sua beleza para a capa desse mês da Z, com uma entrevista exclusiva e uma aula de valorização da cultura nacional através da ressignificação do artesanato.

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Imagem: Rodrigo Bueno
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Esse mercado, apesar de movimentar cerca de 50 bilhões por ano no país e ser fonte de renda para aproximadamente 10 milhões de pessoas, que de acordo com dados IBGE de 2019, ainda sofre com a desvalorização. E enquanto alguns fechavam as portas, Vinicius Santana encontrou a oportunidade de unir sua paixão por arte, fotografia e moda, ao talento de sua mãe, Luciene, artesã desde os 14 anos, para dar vida ao Atêlie Mão de Mãe, marca que repaginou o uso do crochê. “O nome surgiu com a intenção de valorizar o trabalho da minha mãe que sempre foi desmerecido e também ficou como uma homenagem a todas as mães artesãs”, conta o fundador da marca. Acompanhe a entrevista!

Mão que cria, mente que inspira

Dona Luciene, mãe solteira de três filhos que sempre sustentou a família com seu artesanato, teve sua fonte de renda interrompida com o avanço da pandemia, as lojas fechadas e as ruas vazias. “Ela trabalhava não apenas com crochê, mas sim com toda forma de artesanato e sempre carregou como filosofia de vida que não trabalharia para o sistema. Mas, durante a pandemia ela se viu sem dinheiro para se alimentar e veio morar comigo e minhas duas irmãs. Até que chegou um momento que eu fui demitido”, relembra Vinicius. Foi nesse momento que surgiu a ideia da marca, trabalhada inicialmente por meio do Instagram. “Precisava valorizar o artesanato da minha mãe, que precisava vender sua arte por 20 ou 30 reais para sustentar a família, mas quando chegava na loja, a mesma peça era vendida por 50 ou 100 reais”.

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O crochê então ganhou protagonismo e deu vida a criações de peças, que hoje são feitas por dona Luciene, Vinicius e o sócio, Patrick Fortuna e trazem referências da ancestralidade deles de forma mais sustentável e consciente. “O crochê da minha mãe sempre foi diferenciado, e ela começou a adicionar miçangas, palhas, búzios, combinações de cores fora do óbvio, o que contribuiu para criar uma identidade muito forte e autêntica”, conta.

“São inúmeras artesãs que entregam um trabalho muito lindo e hoje vivem em níveis de extrema pobreza por falta da valorização dos olhares para essa arte. No interior da Bahia, existem milhares de mulheres bordadeiras que recebem pouquíssimo pelo seu serviço e a nossa ideia principal é quebrar o tabu da mão de obra escrava dos artesões. O propósito da marca hoje é criar um coletivo de mulheres, mães e solteiras, que consigam sobreviver da sua arte, pregando a sustentabilidade pois nossa matéria-prima é totalmente sustentável, 100% algodão.”

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Crochê

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Imagem: Rodrigo Bueno

O Ateliê Mão de Mãe traz, justamente, a ideia de ressignificar o crochê e elevá-lo a novos horizontes. “Não tem uma forma exata para produzir o crochê, cada crocheteira tem o seu segredo e habilidade. A ideia é usar tudo o que está ao nosso redor, que o próprio mundo nos traz, sem precisar de máquinas ou ferramentas. Nós queremos colocar o crochê em todos os ambientes, criar peças que a pessoa possa usar para ir ao trabalho, para um casamento, um bar, a praia e em todos os lugares. Queremos incluir o crochê totalmente no mundo da moda em todos os sentidos e em todos os ambientes”, afirma Vinicius. De acordo com ele, por ser também uma proposta consciente, com uso de fios 100% algodão, o crochê passa a ser uma grande aposta para sustentabilidade, especialmente no cenário atual.

 

SPFW

A marca se apresentou pela primeira vez no SPFW esse ano, através do Projeto Sankofa, que busca racializar o evento. “Fomos convidados a participar do projeto, que consiste em incluir oito marcas afro-indígenas dentro do mercado da moda. Pequenas marcas que não tinham oportunidade, já que quase toda a grade da SPFW é de empreendedores brancos, então o projeto entra para incluir estilistas negros e afro-indígenas dentro do mercado da moda”, conta. A coleção, inspirada na ancestralidade da família e na história da mãe, trouxe o crochê de forma mais sofisticada e contemporânea, alinhado a camisas oversized, como macaquinho e tops.“Nos inspiramos na nossa religião de matriz africana, o candomblé e nos inspiramos em um orixá chamado Omulu. Trouxemos duas princesas africanas filhas desse orixá, que é o pai da saúde, da doença e da luz”, explica.

 

Futuro

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A marca já tem data para se apresentar novamente na SPFW, em novembro de 2021, e agora de forma presencial. “Teremos como inspiração o mar e a poluição que é gerada ao meio ambiente, trazendo sempre nosso DNA ancestral e sustentável”. Além disso, o fundador conta que a tem projeto de crescimento para trazer mais crocheteiras e procurar investidores. “Para o futuro nós queremos ter um coletivo de mulheres, abrir nossa loja física e fazer com que a marca seja respeitada no Brasil. Um dos objetivos da Ateliê Mão de Mãe é mostrar que aqui no Brasil também é possível produzir moda muito bem feita”, finaliza.