O maior erro do design de moda

Descubra como as marcas podem se livrar dele

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O maior erro do design de moda
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             @raissazogbi

Por Raíssa Zogbi
No fogo cruzado das divisões políticas e opiniões divergentes entre os segmentos da saúde e economia, uma coisa é certa: a pandemia nos deu a oportunidade de ver, mesmo dentro de casa através das telas, cenas da natureza há anos esquecidas. Aliás, o “estar em casa” é o grande responsável por vermos o canal de Veneza limpo, o nascimento de centenas de tartarugas nas praias vazias de Pernambuco ou, até mesmo, javalis circulando nas ruas de Barcelona. Sim! O isolamento social fez regredir rapidamente a poluição do ar, a concentração de dióxido de carbono, os ruídos e, acima de tudo, impulsionou a reflexão de que nada poderá a voltar como era quando a quarentena acabar.

A verdade é que já não vivíamos tempos “normais”. Giorgio Armani, em uma de suas declarações, refletiu sobre os impactos do sistema de vendas fast fashion. “Não faz sentido que um casaco ou um terno meu fiquem na loja durante três semanas, se tornem imediatamente obsoletos e sejam substituídos por mercadoria nova – que não é muito diferente do que a precedeu. Eu não trabalho assim, acho que é imoral fazê-lo”.

Diante de uma indústria que, ao mesmo tempo, também é responsável pela geração de tantos empregos, fica o questionamento: quais as saídas para manter o sistema da moda de pé, porém com práticas mais sustentáveis? O principal e o maior erro do design de moda – que já existia, mas era ignorado por muitos – é a geração de lixo. Restos de tecidos, peças com falhas, aviamentos mal aproveitados serão pontos a serem avaliados pelo consumidor pós-pandemia. Diante disso, listei apenas algumas ações, que inclusive já tem marcas adeptas, que devem compor o mercado num futuro próximo.

A economia circular, aquela que utiliza seus resíduos como matéria-prima para a própria produção, já era apontada como tendência de futuro e deve ganhar força rápido.

Os tecidos mais sustentáveis e de fibras naturais também ganham força no novo cenário. Se você me acompanha por aqui, vai se lembrar dos tecidos feitos a partir de resíduos de alimentos que têm sido produzidos: casca de laranja, abacaxi, maçã e até coco dão origem a fios de alta qualidade, que se degradam com mais facilidade no meio ambiente e, de quebra, aproveitam descartes. Ah, outra novidade são os tecidos que evitam vírus. Claro que é cedo para pensar em Corona, mas já existem estudos para criar roupas que evitam a transmissão e acúmulo dos mesmos nessas superfícies.

Vamos falar de reciclagem? Ela não é nova, mas na moda sempre teve alguns empecilhos, principalmente porque as roupas, na maioria das vezes não são feitas de um único tecido. E, para recicla-las, o material deve ser separado. A boa notícia é que existem algumas alternativas, como a Fibersort: uma grande máquina, capaz de separar por tipo de tecido cerca de 900kg de roupas por hora através de tecnologia infravermelha.

Essas são apenas algumas das alternativas que devem brilhar mais forte nos próximos meses. Mas, se qualquer uma delas está fora da sua realidade, não se preocupe. Os brechós estão aqui prontos para serem visto como jamais foram: livre de preconceitos e clichês. Afinal, com uma nova mentalidade de consumidor, que valoriza questões socioambientais, eles têm crescimento inquestionável. Nos Estados Unidos, por exemplo, esse mercado deve chegar a US$ 51 bilhões em vendas nos próximos cinco anos, de acordo com a consultoria de varejo GlobalData e a ThredUp.

Diante de tudo, para quem prefere enxergar que o copo está meio cheio, a ser pessimista e vê-lo vazio, o momento pode ser turbulento, mas abre espaço para se reinventar e consertar o que está errado. Como diz Armani, é tempo de “de tirar o supérfluo, de encontrar uma dimensão mais humana. Esta é talvez a lição mais importante desta crise”. O lixo é e sempre foi o maior erro do design de moda. Quando vamos dar a merecida atenção a ele?

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