Por Raíssa Zogbi

raissa
             @raissazogbi

Os fios que se misturam e entrelaçam não tecem apenas tapetes e redes, mas a história do povoado de Santa Rita, no Piauí. Tudo começou há 35 anos, com a médica sanitarista Tereza do Carmo Melo, que mergulhou na rotina das pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social e trouxe uma nova possibilidade a elas. O tear, que estava parado, voltou a girar em um ritmo muito mais harmônico, com propósito e como fonte de subsistência da região. Eis que nasce, em 1984, por meio de um viés social e cultural, a Trapos e Fiapos, uma cooperativa, em que os produtos fabricados poderiam ser comercializados em escala maior. “A Trapos & Fiapos é um lugar onde cabe o sonho de muito mais gente. Vi que, quando o indivíduo ganha autonomia, a sua autoestima melhora e consequentemente a sua saúde revigora. Acredito que, como apoiadora dessa iniciativa, consegui alcançar o que eu sempre quis como médica: ajudar a melhorar a saúde dessas pessoas, porque saúde é uma conquista”, conta Tereza.

Tereza do Carmo Melo

O resgate da tecelagem foi feito quando a médica comprou os antigos teares semelhantes aos usados pelos moradores de Santa Rita, vendidos por necessidade, os reformou e os devolveu para aquela comunidade. “Nossa matéria-prima sempre foi o ser humano. O tapete nasceu como estratégia, pois a meta sempre foi a melhoria de vida das pessoas locais”, conta Tereza.

Hoje, são 15 famílias da comunidade envolvidas no processo, com pessoas de 20 a 30 anos de casa, o que cria um laço de fraternidade dentro da marca. “Eu assisto os seus filhos sendo criados, indo para a escola, para a universidade. Beneficia não só no aspecto financeiro, mas também o social”. É o caso de Eliane Souza do Nascimento, de 44 anos, que trabalha no urdimento dos teares, com acabamento das peças e preparação dos cordões. “Antes, eu estudava e ajudava minha mãe nos afazeres de casa. Hoje, tudo mudou. Sinto uma grande satisfação e confiança em trabalhar para a marca, porque mesmo diante dos problemas da vida, quando me envolvo com as linhas, eu me distraio. E é onde eu me sustento e sustento a minha família”, relata.

Acompanhe a entrevista com a idealizadora da marca.

– Como surgiu a Trapos e Fiapos há 35 anos e seu propósito?

Quando fui morar no Piauí, as famílias estavam se separando: as mulheres ficavam com os filhos e os homens buscavam trabalho fora. Eu trabalhava na Universidade do Piauí no Programa de Desenvolvimento Rural e para a minha satisfação pessoal, era necessário fazer um trabalho de saúde pública. Além disso, participei de uma novena de Natal que o tema era Saúde para Todos, onde discutíamos o que era saúde. Chegamos à conclusão que não bastava ter médico e remédio, necessitava de alimentação, moradia, lazer, escola, transporte, e para ter isso, precisava ter um trabalho para gerar esses bens de consumo. Então, surgiu a possibilidade de resgatar os teares, que já era uma atividade própria dos afazeres domésticos ancestrais dessas pessoas: bisavós, avós e pais plantavam algodão, fiavam o fio e teciam as redes. O propósito maior da Trapos é buscar a melhoria da qualidade de vida das pessoas dessa comunidade.

– Hoje, como funciona o processo de criação dos tapetes por tear manual?

A criação dos tapetes, dos desenhos e traços vem do cotidiano, do que eu vejo na natureza e nas pessoas. O nosso tapete tem um aspecto muito peculiar, porque em geral, o urdume dessa peça fica escondido nas tramas. O do nosso é exposto, faz parte do design. A gente urde com fio de algodão e na hora de tampar (fazer os desenhos), usamos duas fibras naturais: a taboa (capim de lagoa) ou algodão cru e tinto, que é tingido fora daqui.

 – Como funciona o processo com a fibra natural da TABOA, retirada da lagoa e fiada com algodão?

 A taboa é utilizada de forma natural ou em trança. Ela vem de cinco famílias no litoral do Piauí, Carnaubal, que trançam a taboa para ser utilizada nas tramas do tapete. Ela é um capim que asfixia o que está embaixo dela e não serve de alimentação para os animais. Colhemos a taboa sem retirar as raízes, e em oito meses ela está pronta novamente para ser coletada. Respeitamos esse tempo para preservar a matéria-prima em seu habitat.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

cinco × 1 =