Há 21 anos à frente da marca que leva seu nome, a estilista paulistana Luciana Papaspyrou construiu uma trajetória marcada por autoria, pesquisa e uma relação quase que artesanal com a moda. Seu trabalho parte de um princípio que se tornou a essência da marca: criar a partir do próprio olhar, sem abrir mão da personalidade para seguir tendências.
A relação com a moda começou muito antes da profissão. Filha de donos de uma fábrica de roupas, Lu cresceu cercada por tecidos, costureiras e pelo cotidiano da produção. Ainda criança, fazia roupas para suas Barbies e acompanhava de perto o trabalho na fábrica dos pais.
“Isso está no meu DNA. Desde pequena eu já tinha essa vontade de criar. Acho que, de alguma forma, sempre soube que queria ter uma marca.”
O caminho até transformar esse desejo em profissão, no entanto, não foi imediato. Antes da moda, Lu cursou Fonoaudiologia e Hotelaria. Foi somente depois, mais madura e consciente da escolha, que decidiu estudar aquilo que já fazia parte de sua vida. Formou-se em Moda pela Faculdade Santa Marcelina, em 2004.
Essa trajetória ajuda a explicar uma característica que permanece presente em seu trabalho: a criação como extensão de sua própria personalidade. Lu gosta de acompanhar o mercado, pesquisar movimentos e entender o que está acontecendo na moda, mas não parte dessas referências para simplesmente reproduzi-las.
“Eu gosto de pesquisar muito o mercado, mas traduzo isso para coleções que tenham a ver com o que eu gosto, uso e acredito. Não desenvolvo uma peça simplesmente porque ela é tendência.”
É dessa combinação entre pesquisa e identidade que nasce o conceito de “criação com alma” que permeia a marca. Cada coleção começa com uma investigação, mas ganha forma a partir das escolhas pessoais da estilista.
Quando o tecido vem antes do desenho e o feito à mão passa a ser identidade da roupa.
O processo criativo da Lu também foge de uma lógica tradicional. Apaixonada por tecidos, muitas vezes é diante de um material que surge a primeira ideia de uma peça. Em viagens e garimpos, a estilista busca tecidos especiais, aviamentos e elementos que possam despertar novas possibilidades.
A partir dessas descobertas, as formas começam a aparecer. Ela desenha as peças e, durante o desenvolvimento da coleção, novas ideias continuam surgindo. Esse processo constante de criação faz com que, além das duas grandes coleções anuais, a marca apresente diferentes cápsulas ao longo do ano.
“Eu compro o tecido primeiro e, enquanto estou escolhendo, já começo a imaginar as formas. Depois desenho a coleção e vou criando peças novas a partir dos meus desejos. É um processo muito vivo.”
Essa busca por materiais especiais também se reflete nos detalhes. Rendas, bordados, botões, aviamentos, pedras naturais e acabamentos são escolhidos individualmente pela estilista. A cor da linha de um bordado, o metal de um zíper ou o formato de uma pedra fazem parte da construção de cada peça.
“Eu olho para tudo. Escolho a renda, o botão, o aviamento, a cor do metal do zíper, a cor da linha do bordado. As pedras naturais, por exemplo, eu escolho uma a uma porque nenhuma tem exatamente o mesmo formato.”
1D: peças únicas como obras de arte
Essa relação com materiais especiais e com a criação individual ganha sua expressão mais exclusiva na 1D. A linha nasce dos tecidos encontrados por Lu em seus garimpos e reúne peças limitadas, numeradas e exclusivas.
Cada criação é pensada de forma individual, incorporando elementos que dificilmente seriam reproduzidos em grande escala. A proposta se aproxima da lógica de uma obra de arte, em que cada peça possui sua própria identidade e história.
“Tem tecidos que eu encontro e que imediatamente me fazem pensar que precisam virar alguma coisa especial. A 1D nasceu desse desejo de criar peças exclusivas, que tenham uma história e que sejam quase como uma obra de arte.”
Botônica, sua nova coleção primavera/verão 27
A coleção representa o momento atual da marca, mas mantém os códigos que acompanham a Lu Papaspyrou desde sua origem: a pesquisa de materiais, a atenção às formas e, principalmente, a escolha de criar a partir de uma visão própria.
Jacquard, cetim, renda, laise, bordados, jeans e sarja são os tecidos e materiais escolhidos para as modelagens que trazem cinturas marcadas, volumes nos ombros e saias e vestidos de linhas retas e alongadas.
Como enxerga o futuro?
Depois de 21 anos, é justamente essa coerência que Lu aponta como uma das razões para a construção da marca.“DNA, foco e personalidade. Acho que foi isso que fez a marca chegar até aqui.”
Com duas lojas em São Paulo, nos bairros Moema e Jardins, e presente em multimarcas, para os próximos anos a intenção é ampliar a presença da marca no Brasil e também avançar para o mercado internacional, sempre de maneira estratégica e em locais selecionados.
Mais do que acompanhar as mudanças da moda, Lu segue interessada em construir uma linguagem própria que começa no tecido, passa pelo desenho, ganha forma nos detalhes feitos à mão e chega à mulher que escolhe vestir uma peça pelo desejo que ela desperta.