A moda decidiu voltar à infância, mas com uma leitura muito mais sofisticada. As chamadas jelly shoes, sandálias produzidas em materiais translúcidos e com aparência semelhante à gelatina, estão novamente entre os itens mais desejados do verão de 2026. O que antes remetia às férias na praia e aos looks coloridos dos anos 1990 agora aparece em versões mais minimalistas, elegantes e até luxuosas, mostrando como a nostalgia continua sendo uma das principais ferramentas criativas da moda contemporânea.
A tendência faz parte de um movimento maior de retomada dos códigos dos anos 1990 e 2000. No Brasil, a estética é especialmente familiar: as sandálias de plástico transparente e colorido fizeram parte da infância de muitas gerações e se tornaram associadas a marcas como Melissa. Agora, o mesmo imaginário retorna acompanhado de novas proporções, acabamentos e propostas de styling.
Da memória afetiva às passarelas
O retorno das jelly shoes não aconteceu por acaso. A estética começou a ganhar força novamente nas últimas temporadas, impulsionada pela nostalgia e pela releitura de peças consideradas populares ou até pouco sofisticadas. Um dos momentos importantes desse movimento veio com a The Row, que apresentou sandálias de gelatina em sua coleção Pre-Fall 2024 e ajudou a reposicionar o calçado dentro do mercado de luxo.
A partir daí, outras marcas passaram a explorar o material e sua aparência translúcida. A estética deixou de estar limitada à tradicional sandália fechada e começou a aparecer em sapatilhas, mules, chinelos, modelos com salto e plataformas.
O resultado é uma tendência que consegue transitar entre o nostálgico e o contemporâneo, mantendo o caráter divertido do material sem necessariamente reproduzir o visual infantil de décadas atrás.
O plástico como novo objeto de desejo
Parte da força da estética Jelly está justamente na contradição. O plástico, material associado ao cotidiano e à produção popular, ganha uma nova leitura quando aparece em produtos de design mais elaborado.
Transparência, brilho e cores translúcidas criam uma aparência quase líquida, enquanto a simplicidade das formas permite que os acessórios sejam combinados com diferentes estilos. Em 2026, essa linguagem também ultrapassa os pés: bolsas, sapatilhas, acessórios e outros objetos passam a incorporar o acabamento semelhante ao da gelatina.
É uma característica que aproxima a tendência de uma discussão maior sobre o novo luxo. A exclusividade não está necessariamente no material utilizado, mas na maneira como ele é reinterpretado, no design e no contexto em que aparece.
A nostalgia dos anos 1990 ganha nova leitura
A volta das jelly shoes também acompanha uma onda nostálgica que domina a moda atual. Referências a Carolyn Bessette-Kennedy, Kate Moss, Naomi Campbell e outros ícones da década aparecem novamente nas passarelas e no street style, enquanto peças que marcaram o período são reinterpretadas para o guarda-roupa contemporâneo.
Nesse cenário, as sandálias de gelatina funcionam quase como um objeto de memória. Para quem cresceu usando os modelos, elas carregam uma relação afetiva; para uma geração mais jovem, representam uma descoberta estética que chega às redes sociais com aparência de novidade.
É justamente essa mistura entre familiaridade e descoberta que faz a tendência ganhar força.
Da praia para a cidade
Outro aspecto importante é a mudança de contexto. Se antes as jelly shoes eram praticamente sinônimo de praia, piscina e férias, hoje elas aparecem em produções urbanas e até em combinações mais sofisticadas.
Modelos transparentes podem acompanhar vestidos leves, enquanto versões coloridas funcionam como ponto de contraste em produções minimalistas. As sapatilhas jelly, por sua vez, aproximam a tendência do universo da sapatilha clássica, criando uma alternativa mais delicada para quem não deseja apostar na sandália tradicional.
O calçado também combina com outra mudança importante do vestir contemporâneo: a valorização do conforto. A estética Jelly consegue reunir praticidade, resistência à água e uma aparência divertida, características que ajudam a explicar sua permanência além do território puramente nostálgico.
O efeito “feio que virou fashion”
Existe ainda um fenômeno cultural por trás desse retorno: a transformação de objetos considerados comuns, infantis ou pouco sofisticados em itens de desejo.
As jelly shoes fazem parte da mesma lógica que colocou papetes, chinelos, tamancos e outros calçados funcionais no centro das discussões fashion. Quando uma estética é repetidamente apresentada por marcas, estilistas e figuras influentes, aquilo que antes parecia inadequado pode adquirir um novo significado.
A moda, nesse caso, não está simplesmente recuperando uma tendência. Está mudando a percepção sobre ela.
Uma tendência que vai além dos sapatos
A estética Jelly já começa a se consolidar como uma linguagem própria. O acabamento translúcido e brilhante aparece em bolsas, acessórios e diferentes categorias de produtos, criando um universo visual que combina nostalgia, transparência e uma dose de diversão.
É também uma estética que conversa diretamente com a cultura digital. Seu aspecto brilhante e colorido é facilmente reconhecível em fotografias e vídeos, enquanto a associação com os anos 1990 e 2000 contribui para seu potencial viral nas redes sociais.
No fim, o sucesso da Jelly revela algo muito maior sobre o momento atual da moda: aquilo que um dia foi considerado ultrapassado pode voltar como objeto de desejo quando encontra uma nova narrativa. Das praias dos anos 1990 às passarelas e ruas de 2026, as sandálias de gelatina mostram que a nostalgia continua sendo uma das matérias-primas mais poderosas da moda.