Poucas artistas construíram uma relação tão poderosa entre música, imagem e moda quanto Beyoncé. Ao longo de mais de duas décadas de carreira, a cantora transformou figurinos em parte fundamental de suas narrativas, criando personagens para videoclipes, turnês e grandes aparições públicas e, ao mesmo tempo, ajudando a projetar designers para uma audiência internacional.
No dia 4 de setembro, quando Beyoncé celebra seu aniversário, revisitar sua trajetória fashion é também observar como a cantora ajudou a transformar o palco em uma das principais vitrines da moda contemporânea. De Thierry Mugler a Schiaparelli, passando por marcas independentes e estilistas brasileiros, suas escolhas mostram que o figurino nunca foi apenas um complemento para a música: é parte da própria performance.
A moda como extensão da música
Desde o início da carreira, Beyoncé entendeu que uma apresentação pop precisava ser construída também visualmente. O corpo, o cabelo, a maquiagem e, principalmente, as roupas passaram a funcionar como elementos de uma narrativa maior.
Um dos primeiros grandes exemplos é o figurino de “Single Ladies”, lançado em 2008. O icônico body preto, criado por Tina Knowles, mãe da cantora, tornou-se inseparável da coreografia e da imagem da música. Anos depois, o visual robótico criado por Thierry Mugler para “Sweet Dreams” reforçaria a capacidade de Beyoncé de transformar o próprio corpo em uma espécie de tela para experimentações fashion.
A relação com grandes estilistas também se intensificou. No Met Gala de 2012, a cantora apareceu com um vestido transparente da Givenchy, enquanto, mais recentemente, criações de Schiaparelli e outros nomes da alta moda passaram a fazer parte de sua linguagem visual. A própria trajetória mostra uma artista que não se limita a uma estética: Beyoncé muda de personagem conforme muda de álbum, conceito e momento de carreira.
Quando Beyoncé abriu espaço para o Brasil
Entre os capítulos mais especiais dessa relação com a moda está a aproximação da cantora com Patricia Bonaldi, fundadora da marca brasileira PatBo.
Em setembro de 2023, durante a Renaissance World Tour, Beyoncé apareceu no palco em Vancouver, no Canadá, usando um figurino criado especialmente para ela pela estilista mineira. O body prateado, coberto por bordados e mais de 530 franjas de cristais, foi desenvolvido pela equipe da PatBo em Uberlândia e levou cerca de 60 dias para ser finalizado.
A escolha aconteceu justamente durante o mês de aniversário da cantora. Na ocasião, Beyoncé havia convidado os fãs a usarem prata nos shows para celebrar seus 42 anos, transformando a cor em uma espécie de código visual da turnê. O figurino criado por Bonaldi incorporou perfeitamente essa proposta, unindo o brilho futurista da Renaissance ao trabalho artesanal característico da PatBo.
Para a designer, o momento representou um dos maiores acontecimentos de sua carreira. E o impacto não ficou restrito àquela apresentação. Em entrevista à CNN Brasil, Bonaldi afirmou posteriormente que vestir Beyoncé levou a marca a outro patamar de reconhecimento e fez com que seu nome passasse a ser associado à cantora até mesmo por pessoas que não acompanhavam seu trabalho na moda.
Da passarela de Nova York ao palco mundial
O encontro também evidencia a importância da presença internacional de estilistas brasileiros. A equipe de Beyoncé conheceu o trabalho da PatBo depois que a marca apresentou sua coleção na Semana de Moda de Nova York, em setembro de 2023. A partir dali, os stylists da cantora entraram em contato com a grife e solicitaram criações sob medida.
É um movimento que mostra como a internacionalização da moda brasileira pode acontecer de diferentes maneiras. Uma coleção apresentada em Nova York pode chegar aos palcos de uma das maiores artistas do mundo e, a partir de uma única imagem, alcançar milhões de pessoas.
E Beyoncé ainda levaria a parceria para outro contexto.
Beyoncé no Brasil, novamente de PatBo
Em dezembro de 2023, a cantora surpreendeu ao desembarcar em Salvador, na Bahia, para participar da première de Renaissance: A Film by Beyoncé. Para a ocasião, novamente escolheu PatBo, dessa vez com um conjunto de jeans bordado composto por jaqueta, top e calça. A produção combinava o trabalho artesanal da marca com uma proposta mais casual e brasileira.
O episódio ganhou uma dimensão simbólica ainda maior porque Beyoncé estava justamente no Brasil usando uma marca criada por uma estilista brasileira. Patricia Bonaldi contou que sequer sabia que a cantora usaria as peças naquela ocasião: descobriu junto com o público quando as imagens começaram a circular.
A relação entre as duas, portanto, ultrapassou o tradicional “vestir uma celebridade”. Beyoncé passou a funcionar como uma espécie de ponte entre o trabalho artesanal brasileiro e uma audiência global.
A era Beyoncé também é uma era de moda
Talvez seja impossível separar a evolução estética da cantora das transformações da própria indústria. Beyoncé atravessou diferentes momentos da moda: o maximalismo dos anos 2000, o futurismo, a alfaiataria, a sensualidade, o glamour de alta-costura e, mais recentemente, a valorização de referências negras, africanas e da cultura do sul dos Estados Unidos.
Na era Renaissance, essa relação ficou ainda mais evidente. Inspirado pela cultura dos clubes, pela música disco e pela cena ballroom, o projeto transformou o figurino em uma extensão do conceito musical. Prata, metalizados, cristais, botas, chapéus e silhuetas esculturais passaram a construir um universo próprio.
A moda, nesse caso, não simplesmente acompanha a música. Ela ajuda a explicar a música.
É uma característica que Beyoncé compartilha com artistas como Madonna, David Bowie e Lady Gaga, mas que ganhou uma dimensão particular em sua carreira porque a cantora também utiliza a roupa para construir narrativas sobre identidade, ancestralidade, feminilidade e poder.
O legado para a moda brasileira
A presença de PatBo no universo de Beyoncé também representa algo maior para o mercado brasileiro. Durante muito tempo, a internacionalização da moda nacional esteve concentrada em exportar produtos ou conquistar espaço em grandes semanas de moda. Hoje, ela também acontece por meio de imagem e cultura.
Quando uma artista como Beyoncé escolhe uma marca brasileira, não está apenas vestindo uma roupa. Ela coloca diante de uma audiência internacional técnicas, materiais e referências que fazem parte da produção criativa brasileira.
No caso de Patricia Bonaldi, o trabalho artesanal e os bordados são elementos fundamentais da identidade da PatBo. A criação usada por Beyoncé levou essa linguagem para um palco global, mostrando que o feito à mão também pode dialogar com uma estética pop, futurista e grandiosa.
É justamente aí que está a força dessa parceria: o Brasil não aparece apenas como inspiração, mas como autor da roupa.
No fim, a história fashion de Beyoncé é sobre isso: não existe uma única Beyoncé para vestir. Existe a artista que muda, experimenta e reinventa sua imagem e, a cada transformação, leva consigo uma nova possibilidade para a moda.
Neste 4 de setembro, celebrar seu aniversário é também celebrar mais de duas décadas em que música e moda caminharam lado a lado. E, entre tantos nomes internacionais que ajudaram a construir seu guarda-roupa, Patricia Bonaldi ocupa um capítulo especial: o de uma brasileira que chegou ao palco de Beyoncé e mostrou que o talento nacional também pode brilhar sob os holofotes do mundo.