Em 10 de setembro de 1933, nascia em Hamburgo, na Alemanha, Karl Lagerfeld, um dos nomes que mais transformaram a maneira de pensar e produzir moda no século XX. Ao longo de uma carreira de aproximadamente 65 anos, o designer passou por casas como Chloé, Fendi e Chanel, além de comandar sua própria marca. Sua trajetória foi marcada por uma capacidade particular de desenhar, reinterpretar códigos históricos e transformar referências do passado em imagens contemporâneas.
Mais do que celebrar seu aniversário, olhar para sua trajetória hoje permite revisitar um momento especialmente simbólico: sua última coleção para a Chanel, apresentada em março de 2019, poucas semanas depois de sua morte. O desfile de outono-inverno 2019/20, inspirado em uma paisagem alpina, acabou se tornando a última criação desenvolvida por Lagerfeld para a maison.
Uma despedida que não foi planejada
Karl Lagerfeld morreu em 19 de fevereiro de 2019, aos 85 anos. Naquele momento, a coleção seguinte da Chanel já estava em processo de desenvolvimento. O estilista havia trabalhado ao lado de sua equipe, incluindo Virginie Viard, sua colaboradora de longa data, mas não chegou a acompanhar a apresentação final. A própria Chanel registra oficialmente seu falecimento em fevereiro daquele ano e, posteriormente, a nomeação de Viard como diretora artística das coleções.
O desfile aconteceu em 5 de março de 2019, no Grand Palais, em Paris. O cenário reproduzia uma vila alpina coberta de neve, com chalés, árvores e elementos associados às paisagens de inverno. A coleção trouxe referências ao universo do esqui e do après-ski, combinadas aos códigos tradicionais da Chanel.
A apresentação ganhou, inevitavelmente, um significado que não estava previsto quando a coleção começou a ser criada. Aquela passarela seria a última vez em que um trabalho desenvolvido por Lagerfeld para a Chanel chegaria ao público.
O último capítulo de uma relação de 36 anos
Quando Lagerfeld chegou à Chanel, em 1983, encontrou uma maison que precisava novamente despertar o interesse de uma nova geração. Durante seus 36 anos à frente da criação, o designer transformou os códigos estabelecidos por Gabrielle Chanel sem abandonar completamente suas referências.
O tailleur, o tweed, as pérolas, as correntes, o preto e branco e a camélia passaram por inúmeras releituras. Lagerfeld entendeu que preservar uma identidade não significava mantê-la imóvel. Era possível repetir um código e, ao mesmo tempo, fazê-lo parecer novo.
Essa capacidade de renovação explica parte de sua importância para a moda. Segundo o Metropolitan Museum of Art, sua carreira atravessou cerca de seis décadas e meia, passando por diferentes casas e linguagens, enquanto seus desenhos funcionavam simultaneamente como ilustração e ferramenta técnica para a construção das roupas.
O desenho como assinatura
Talvez um dos maiores legados de Lagerfeld esteja justamente antes da roupa existir: no papel.
O designer desenhava constantemente. Seus croquis não eram apenas registros de uma ideia, mas uma forma de comunicação com as equipes responsáveis pela construção das peças. O Met destaca que seus desenhos combinavam a precisão de uma representação técnica com a expressividade de uma ilustração de moda.
Essa característica ganha ainda mais força quando pensamos em sua última criação. A roupa apresentada na passarela desapareceu depois do desfile, mas o desenho permanece como registro de uma ideia que atravessou o processo criativo e chegou ao mundo.
É como se o croqui fosse uma espécie de última assinatura de Lagerfeld.
Entre o artesanal e o tecnológico
Outro aspecto fundamental de sua obra foi a capacidade de aproximar técnicas aparentemente opostas. O Met descreve a prática de Lagerfeld como uma combinação entre o artesanal e o mecânico, entendendo os dois processos não como rivais, mas como ferramentas complementares para desenvolver suas criações.
Essa característica também aparece em sua trajetória na Fendi. Ao assumir a direção artística da casa italiana em 1965, Lagerfeld criou o icônico monograma FF e ajudou a transformar a percepção sobre o trabalho com peles, levando o material para construções mais leves, gráficas e experimentais. A própria Fendi descreve essa relação como uma das colaborações mais longas de sua história.
Seu legado, portanto, não está apenas nas roupas famosas ou nos desfiles grandiosos, mas também na maneira como ele entendia o processo de criação.
Quando a moda continua depois do criador
A morte de um designer costuma criar uma pergunta inevitável: o que acontece com sua linguagem quando ele não está mais ali para desenvolvê-la?
No caso de Lagerfeld, a resposta está nos próprios arquivos. Seus desenhos, coleções e códigos continuam sendo estudados, preservados e reinterpretados. Em 2023, o Costume Institute do Metropolitan Museum of Art dedicou uma exposição à sua obra, reunindo aproximadamente 150 peças acompanhadas, em muitos casos, pelos respectivos croquis. A mostra percorreu sua trajetória desde os primeiros trabalhos até sua última coleção, em 2019.
Isso revela algo essencial sobre o legado de um criador: a obra não termina necessariamente quando o artista deixa de produzir.
Ela continua sendo observada, questionada e reinterpretada.
O último look
Por isso, a última coleção de Karl Lagerfeld para a Chanel pode ser vista para além da melancolia de uma despedida. O cenário alpino, os casacos, os tweeds, as botas, as capas e as referências ao inverno não são apenas elementos de uma temporada.
São o último capítulo de uma relação que durou mais de três décadas.
Lagerfeld morreu antes de assistir àquela passarela, mas deixou ali uma coleção construída a partir de uma linguagem que conhecia profundamente. E talvez exista algo especialmente bonito nisso: seu último trabalho não precisou ser criado para falar sobre sua própria despedida. Ele simplesmente continuou fazendo aquilo que fez durante toda a vida desenhar, transformar referências e imaginar o próximo capítulo da moda.
No fim, é justamente o desenho que permanece.
E, no aniversário de Karl Lagerfeld, talvez seja essa a melhor maneira de lembrar seu legado: não pela ausência do criador, mas pela quantidade de futuros que ele deixou desenhados.