A moda perdeu um de seus grandes mestres da fantasia. Bob Mackie, estilista e figurinista norte-americano responsável por construir a imagem de algumas das maiores estrelas do entretenimento, morreu nesta segunda-feira, 14 de setembro, aos 87 anos. A causa da morte não havia sido divulgada inicialmente. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Mackie transformou roupas em personagens e figurinos em acontecimentos, estabelecendo uma linguagem visual que atravessou televisão, cinema, música, teatro e moda.
Apelidado de “sultão das lantejoulas”, Mackie ficou conhecido pelo uso exuberante de cristais, strass, penas, transparências, bordados e muito brilho. Mas reduzir seu trabalho à estética extravagante seria ignorar justamente o que fez dele um dos nomes mais importantes do figurino do século XX: sua capacidade de entender a personalidade de quem vestia e transformar essa identidade em imagem. Para Mackie, uma roupa de palco não precisava apenas ser bonita. Ela precisava contar uma história, criar impacto e, acima de tudo, ser inesquecível.
De Hollywood à televisão
Nascido em 1939, na Califórnia, Mackie entrou para a indústria do entretenimento ainda jovem. No início dos anos 1960, trabalhou nos estúdios da Paramount e teve contato com nomes fundamentais do figurino de Hollywood, incluindo Edith Head e Jean Louis. Entre seus primeiros trabalhos está o desenho do vestido usado por Marilyn Monroe em 1962, quando a atriz cantou “Happy Birthday” para o então presidente John F. Kennedy. A peça, coberta de cristais e ajustada ao corpo, se tornaria uma das imagens mais famosas da cultura pop.
Poucos anos depois, Mackie encontrou na televisão um dos principais palcos para sua criatividade. Foi responsável pelos figurinos de The Carol Burnett Show durante os onze anos do programa, criando roupas que transitavam entre o glamour e a comédia. A parceria rendeu um de seus trabalhos mais conhecidos: o vestido de cortina usado por Carol Burnett na paródia “Went with the Wind!”, uma brincadeira com o clássico Gone with the Wind. A criação, completa com haste de cortina e uma espécie de sanefa transformada em chapéu, hoje faz parte do acervo do Smithsonian.
O trabalho com Burnett também ajudou a consolidar uma característica essencial de Mackie: a compreensão de que o figurino pode ser uma ferramenta narrativa. A roupa não precisava apenas acompanhar a cena, poderia ser a própria piada, o elemento de surpresa ou a extensão visual de uma personagem.
Cher e a construção de uma imagem
Se existe uma relação capaz de resumir o legado de Bob Mackie, é a parceria com Cher. Os dois trabalharam juntos por décadas e construíram uma das colaborações mais reconhecíveis entre estilista e artista na história da música. Mackie participou diretamente da transformação visual de Cher em um dos grandes símbolos do glamour e da ousadia dos anos 1970 em diante.
Com o estilista, Cher apareceu em criações que exploravam transparências, recortes, franjas, penas, metais e silhuetas que desafiavam os códigos tradicionais do tapete vermelho. Um dos exemplos mais lembrados é o figurino usado pela cantora no Oscar de 1986: calça preta, top estruturado, peças adornadas com joias e um enorme cocar de penas. O look se tornou um dos momentos mais comentados da história da cerimônia e sintetizou a filosofia de Mackie: em vez de vestir uma celebridade para que ela desaparecesse dentro da roupa, ele criava para que ela fosse impossível de ignorar.
A relação entre os dois foi tão marcante que ultrapassou o universo dos figurinos e se tornou parte da própria identidade visual de Cher. Em 2019, Mackie recebeu um Tony pelo trabalho no musical The Cher Show, que transformava a trajetória da cantora em espetáculo.
O glamour como linguagem
Ao longo da carreira, Mackie também vestiu nomes como Diana Ross, Tina Turner, Elton John, Barbra Streisand, Liza Minnelli, Madonna e Dolly Parton. Cada artista encontrava no designer uma maneira diferente de amplificar sua presença. Para Tina Turner, por exemplo, o figurino podia reforçar a força e a energia de uma performance; para Elton John, ajudava a construir personagens exuberantes; para Diana Ross, acompanhava o glamour de uma das maiores divas da música.
É justamente aí que seu legado se aproxima da moda. Mackie não seguia necessariamente a lógica tradicional das tendências. Seu trabalho estava mais interessado em criar imagens capazes de sobreviver ao tempo. O excesso, em suas mãos, deixava de ser apenas ornamentação e se tornava identidade.
Essa visão também ajudou a aproximar moda e entretenimento em uma época em que o figurino de palco ainda era frequentemente tratado como uma categoria separada da moda. Mackie mostrou que uma roupa criada para televisão ou para uma apresentação musical poderia ter o mesmo poder de influência de uma peça apresentada em uma passarela.
Muito além das lantejoulas
Apesar da associação imediata ao brilho, a contribuição de Mackie foi muito mais ampla. O estilista trabalhou no cinema, na televisão, na Broadway e desenvolveu linhas próprias de moda, além de criar roupas para bonecas Barbie. Também recebeu três indicações ao Oscar de Melhor Figurino e conquistou nove prêmios Emmy ao longo da carreira. Em 2002, entrou para o Television Academy Hall of Fame.
Sua influência, porém, não ficou presa às décadas de 1970 e 1980. Peças vintage assinadas por Mackie continuaram aparecendo em produções contemporâneas e sendo usadas por novas gerações de artistas, incluindo Miley Cyrus, Zendaya e Sabrina Carpenter. A permanência de suas criações mostra como seu vocabulário visual continua dialogando com a cultura pop.
O próprio universo da moda passou a revisitar o trabalho do estilista como referência histórica. Seu acervo e seus figurinos passaram a ser tratados não apenas como roupas de celebridades, mas como registros de uma época em que televisão, música, cinema e moda começaram a se misturar de maneira cada vez mais intensa.
Uma moda feita para ser lembrada
Bob Mackie pertence a uma geração de criadores que entendia a roupa como espetáculo. Em vez de buscar a discrição, ele apostou na presença. Em vez de esconder o corpo, explorou sua teatralidade. Em vez de separar humor e glamour, colocou os dois lado a lado.
Seu legado está justamente nessa capacidade de transformar uma roupa em memória. O vestido de Marilyn Monroe, os figurinos de Carol Burnett, os looks de Cher e tantas outras criações não ficaram conhecidos apenas porque foram usados por celebridades. Eles se tornaram parte da história da cultura visual.
Em uma indústria que muitas vezes busca a próxima tendência, Mackie construiu algo mais raro: imagens que permanecem. Seu trabalho mostrou que moda também pode ser fantasia, humor, performance e, principalmente, uma forma de criar personagens. Ao fazer isso, transformou o figurino em linguagem e ajudou a estabelecer uma das ideias mais poderosas de sua trajetória: vestir alguém também pode ser uma maneira de construir um ícone.