Poucos rostos traduzem tão bem a revolução estética dos anos 1960 quanto o de Twiggy. Nascida Lesley Hornby, em Londres, em 19 de setembro de 1949, a modelo britânica se tornou um dos grandes símbolos da chamada Swinging London e ganhou o título de “The Face of 1966” depois de chamar a atenção da imprensa britânica. Seu cabelo curto, os olhos enormes e, principalmente, a maquiagem gráfica ajudaram a construir uma imagem que ultrapassou as páginas das revistas para se transformar em referência permanente de moda e beleza.
Neste sábado (19), quando Twiggy completa 77 anos, seu famoso olhar volta ao centro das atenções. Mais do que um simples delineado, a maquiagem da modelo ajudou a romper com o glamour mais polido da década anterior e trouxe para a beleza uma linguagem quase artística.
O nascimento de um olhar de boneca
A maquiagem que se tornou sinônimo de Twiggy tinha vários elementos, mas o delineado era responsável por criar a estrutura do olhar. Uma linha preta marcava a raiz dos cílios superiores, enquanto outra linha era desenhada no côncavo, criando uma espécie de pálpebra artificial. O efeito fazia os olhos parecerem maiores e mais arredondados, reforçando a aparência de boneca que se tornou uma das marcas registradas da modelo.
Mas havia ainda um detalhe que tornaria o visual imediatamente reconhecível: os cílios inferiores desenhados à mão. Em vez de simplesmente aplicar máscara nos fios naturais, Twiggy criava pequenos riscos pretos abaixo dos olhos, simulando cílios longos e separados. A técnica ajudava a ampliar visualmente o olhar e dava à maquiagem um aspecto quase ilustrado.
A própria história do delineador mostra como Twiggy ajudou a levar o traço para um território mais experimental e um dos aspectos mais interessantes de sua maquiagem é justamente sua origem. Em vez de ter sido criada como uma estratégia elaborada de imagem por uma grande equipe, a ideia dos cílios inferiores desenhados nasceu de uma observação pessoal da própria modelo.
A inspiração, curiosamente, veio de uma boneca. Em entrevista à Vogue, Twiggy contou que a ideia surgiu ao observar uma boneca que tinha em seu quarto e reparar nos grandes cílios superiores e inferiores. A partir daí, começou a reproduzir o efeito em sua própria maquiagem.
O resultado era propositalmente exagerado. Enquanto a maquiagem de décadas anteriores frequentemente buscava valorizar os olhos de maneira sofisticada e discreta, Twiggy transformava os olhos no próprio ponto focal do rosto. A maquiagem deixava de ser apenas um recurso para embelezar e passava a funcionar quase como uma ilustração.
A estética também dialogava diretamente com o movimento mod, que ganhou força na Londres dos anos 1960, com referências à feminilidade e formas gráficas.
A modelo que virou símbolo dos anos 1960
Quando Twiggy surgiu na cena fashion, tinha apenas 16 anos. Seu corte de cabelo curto, feito no salão Leonard, em Londres, chamou a atenção do fotógrafo Barry Lategan e, posteriormente, da jornalista Deirdre McSharry, do Daily Express. A publicação que a apresentou como “The Face of 1966” ajudou a transformar a adolescente em fenômeno internacional.
Sua aparência também representava uma ruptura. Em vez da imagem de glamour associada às grandes estrelas de Hollywood, Twiggy apresentava uma beleza jovem, quase andrógina e fortemente ligada à cultura pop.
Quando o delineador virou desenho
A grande diferença entre o delineado de Twiggy e o tradicional cat-eye estava justamente na liberdade de desenhar o olho para além de sua anatomia. O delineador não servia apenas para acompanhar a linha dos cílios: ele criava uma nova linha de expressão.
O contorno superior podia ser mais espesso, enquanto o côncavo recebia uma linha escura que enfatizava a profundidade da pálpebra. Na parte inferior, os riscos que imitavam cílios completavam a ilusão. O resultado era um olhar que parecia maior do que o próprio rosto.
O chamado “Twiggy eye” nunca desapareceu completamente. Ao longo das décadas, maquiadores revisitaram seus principais elementos, adaptando-os às tendências de cada época. O delineado gráfico, os cílios inferiores marcados e a valorização do formato arredondado dos olhos continuam aparecendo em editoriais, passarelas e produções de beleza.
Twiggy levou suas ideias e o zeitgeist da época ao extremo. Seus olhos não precisavam parecer naturais, precisavam ser reconhecíveis e foram eternizados pela moda, assim como seus trabalhos.