Criado para reconhecer talentos, excelência técnica e identidade autoral, a última edição do Best of Fashion Awards aconteceu durante o período da New York Fashion Week SS27 e reuniu designers, modelos, jurados e profissionais da indústria em uma plataforma internacional de avaliação e reconhecimento. Em sua edição de 2026, realizada em Nova York, o evento também abriu espaço para a conexão entre tecnologia e ancestralidade ao apresentar criações de designers indígenas da Amazônia em uma produção com inteligência artificial.
A Z esteve presente no evento através de sua editora, Cristiane Gracioli, uma das juradas dos desfiles, que trouxe sua visão e experiência de mais de 30 anos no mercado editorial ao lado de outros profissionais da área para os estilistas. Com olhar de negócio e expertise no mercado de moda, Cris entrevistou a cofundadora do projeto, Gislaine Balzano.
À frente de importantes projetos da moda internacional, Gislaine é cofundadora e diretora de moda do Best of Fashion Awards, e trouxe para o evento uma trajetória construída entre grandes semanas de moda, produção e direção criativa. Com experiência em Londres, Milão e Paris, Gislaine já levou mais de 60 marcas para passarelas internacionais, coordenou mais de 200 modelos e dirigiu mais de 700 looks em ambientes de alta competitividade no mercado fashion.
Na entrevista, Gislaine fala sobre sua trajetória, os bastidores do prêmio, os desafios de levar talentos para o cenário internacional e os novos caminhos que estão transformando a moda global. Acompanhe esse bate-papo exclusivo com a Z Magazine:
O que significa, para você, levar designers indígenas da Amazônia para o primeiro dia da New York Fashion Week e colocá-los no centro de uma produção construída com inteligência artificial?
“Para mim, levar designers indígenas da Amazônia para o primeiro dia da New York Fashion Week significa realizar um sonho, mas, acima de tudo, significa dar visibilidade e criar oportunidades. Eu não vejo a moda como algo fútil. Para mim, a moda tem um enorme poder de transformação. Ela pode contar histórias, preservar culturas, gerar oportunidades e impactar positivamente a vida de pessoas e comunidades. Quando pensamos nos 31 designers indígenas que estão diretamente ligados à Amazônia, precisamos lembrar da distância, das dificuldades de acesso, da estrutura e de tudo o que muitas vezes impede que esses talentos cheguem aos grandes centros e aos grandes eventos internacionais. Por isso, vê-los chegando a um palco como a New York Fashion Week é algo muito maior do que simplesmente participar de uma semana de moda. É abrir uma porta que, durante muito tempo, esteve distante deles. E essa iniciativa também tem um significado muito especial para mim porque eu já estive diretamente envolvida com o MI Moda Indígena, atuando na curadoria, na direção executiva e na direção criativa do projeto. Conheço de perto esses designers, suas histórias, seus desafios e, principalmente, a potência criativa que existe dentro da Amazônia. Por isso, colocar esses 31 designers no centro de uma produção internacional, unindo moda, cultura, tecnologia e inteligência artificial, é, para mim, uma forma de mostrar ao mundo que a Amazônia não é apenas um território que precisa ser preservado. Ela também é território de criatividade, conhecimento, identidade, inovação e talento. E talvez seja justamente isso que mais me emociona: perceber que a moda pode ser uma ponte entre mundos que muitas vezes parecem tão distantes. Podemos levar a ancestralidade para o futuro sem apagar sua essência. Podemos utilizar a tecnologia sem substituir o ser humano, mas para potencializar aquilo que ele já tem de único. Então, para mim, esse momento representa um sonho que está se tornando realidade. Um sonho de usar a moda não apenas para vestir pessoas, mas para abrir caminhos, transformar narrativas e criar novas possibilidades para quem, muitas vezes, não teve a oportunidade de chegar até aqui”.
Você já esteve à frente de projetos da MI Moda Indígena em Londres. O que mudou no seu olhar sobre esses designers e sobre a moda indígena da Amazônia que os trouxe para esse projeto em Nova York?
“Apesar de ser brasileira, confesso que foi trabalhando com esses designers na London Fashion Week que eu realmente tive a oportunidade de conhecer e compreender mais profundamente a cultura indígena e a força que existe por trás dessa moda. Eu estive na London Fashion Week a convite do meu sócio e cofundador do Best of Fashion Brasil, que foi, na verdade, a pessoa que esteve diretamente na Amazônia. Ele passou uma temporada lá, construiu esse network e criou essa conexão entre o meu trabalho nas passarelas internacionais e esses designers e suas comunidades. Foi a partir desse encontro que o meu olhar mudou. Eu passei a entender que não estamos falando apenas de moda, de estética ou de uma criação autoral. Estamos falando de identidade, ancestralidade, território, cultura e, principalmente, de histórias que precisam ser vistas e respeitadas. E foi absolutamente lindo perceber como toda essa biodiversidade da Amazônia pode se transformar em moda. As sementes, os elementos naturais, os tingimentos naturais, as escamas e tantos outros insumos que fazem parte daquele universo são ressignificados pelas mãos desses designers e transformados em peças contemporâneas, sofisticadas e, ao mesmo tempo, carregadas de significado. O que mais me encantou foi perceber a capacidade que eles têm de adaptar esses elementos à realidade da moda e também à vida cotidiana. Não é uma moda feita apenas para ser admirada, mas uma moda que pode ser incorporada ao nosso dia a dia, por pessoas de diferentes lugares e culturas, sem perder a sua identidade e a sua origem. Foi uma experiência incrível, porque me fez enxergar que existe uma riqueza imensa na moda indígena brasileira e que nós precisamos criar pontes para que essa riqueza possa ser conhecida pelo mundo. E foi justamente essa experiência em Londres que despertou em mim o desejo de continuar construindo essa ponte e trazer esses designers para Nova York. Eu achei muito boa a essência da resposta, porque ela responde diretamente à preocupação da pergunta: a IA não está apropriando a cultura indígena; ela está sendo utilizada como uma ferramenta para ampliar a voz, a presença e o alcance dos próprios designers indígenas. E tem um ponto muito forte no que você explicou: você não começou pela inteligência artificial. Você começou pelo seu olhar de direção criativa e pela lógica de um desfile presencial. Isso é importante porque demonstra que a tecnologia entrou como ferramenta dentro de uma concepção criativa já existente, e não como algo que passou a comandar o processo. Eu só faria alguns ajustes para deixar a resposta mais elegante, objetiva e conceitualmente forte, principalmente porque a pergunta é bastante sofisticada”.
Existe uma discussão importante por trás desse desfile: até onde a inteligência artificial pode reinterpretar uma cultura ancestral sem apagar sua identidade? Como você trabalhou para que a tecnologia fosse uma ferramenta de amplificação e não de apropriação?
“Para mim, o ponto de partida foi justamente entender que a inteligência artificial não poderia substituir o olhar criativo nem a identidade desses designers. Ela deveria estar a serviço deles. O meu trabalho começou pela direção criativa e também pela adequação das coleções à linguagem de uma passarela internacional, pensando o desfile inicialmente como se ele fosse acontecer de forma presencial em Nova York. A partir dessa construção, a inteligência artificial entrou como uma ferramenta tecnológica para viabilizar e potencializar essa experiência. Um dos elementos que passa a ser transformado é o casting. As modelos não são reais, são modelos geradas por inteligência artificial. Mas isso também nos permitiu trabalhar uma diversidade de corpos, características e representações que muitas vezes é mais difícil de alcançar em uma produção presencial. E o mais importante: a tecnologia não criou a identidade indígena apresentada nesse projeto. Essa identidade já existe. Ela pertence aos designers, às suas referências, à sua cultura e à sua criatividade. O nosso papel foi criar uma ponte para que tudo isso pudesse chegar a uma plataforma internacional. Por isso, transformamos esse desfile em um filme, criando a possibilidade de que esses designers, muitos deles diretamente da Amazônia e alguns ainda concluindo sua formação em design ou recém-formados, pudessem apresentar suas criações em Nova York como se estivessem fisicamente aqui. Para mim, essa é uma das grandes possibilidades da tecnologia: encurtar distâncias, reduzir tempo e custos e ampliar oportunidades, permitindo que novos designers tenham acesso a ferramentas que antes poderiam estar muito distantes da sua realidade. E essa tecnologia pode acompanhar todo o processo criativo, desde o desenvolvimento de um croqui, passando pela visualização e produção de uma peça, até a sua apresentação em uma passarela internacional. Mas existe uma fronteira que, para mim, é fundamental: a inteligência artificial pode potencializar o processo, mas não pode substituir a criatividade, a história, a cultura e o ser humano que estão por trás dela. É justamente nessa perspectiva que vejo esse projeto: não como uma substituição, mas como uma amplificação. Não como apropriação, mas como uma ferramenta para dar ainda mais visibilidade àquilo que já pertence aos próprios criadores”.
O que mais te surpreendeu no processo de criar um desfile em que a inteligência artificial participa do design, do casting e da direção criativa? O que a IA trouxe que talvez não fosse possível realizar de uma maneira tradicional?
“O que mais me surpreendeu foi perceber o quanto a inteligência artificial pode ampliar a nossa visão criativa. Como diretora criativa, quando construímos um styling, imaginamos muitos detalhes: o tipo de modelo, altura, proporções, cor e textura do cabelo, penteado, maquiagem, acessórios, atitude… Toda a coordenação de beleza e imagem que envolve uma passarela, especialmente uma passarela internacional como a New York Fashion Week. Na produção tradicional, muitas vezes temos uma ideia muito específica na cabeça, mas precisamos adequá-la às possibilidades reais de casting, disponibilidade e produção. Com a inteligência artificial, eu consigo partir dessa visão e construir uma representação muito mais próxima daquilo que imaginei. E foi justamente aí que encontrei uma possibilidade que considero muito especial: usar essa liberdade criativa para trazer diversidade para a passarela. Neste desfile, quisemos representar diferentes corpos, belezas e identidades: temos modelos plus size, negras, loiras, ruivas, indígenas, modelos com diferentes características e proporções. A intenção foi criar uma passarela verdadeiramente plural. Talvez essa seja uma das coisas mais interessantes que a IA trouxe para esse projeto: a possibilidade de não precisar escolher entre a minha visão criativa e a diversidade que eu gostaria de ver representada. Eu pude imaginar esse casting de forma ampla e construir uma narrativa visual em que diferentes mulheres e diferentes belezas ocupam esse espaço. Para mim, a inteligência artificial não substitui a criatividade humana. Ela potencializa a criatividade humana. A ideia, o conceito, o olhar, a sensibilidade e a direção continuam sendo nossos. A tecnologia entra como uma ferramenta capaz de transformar uma ideia que muitas vezes existia apenas na nossa imaginação em uma experiência visual concreta. Claro. Para essa quinta pergunta, eu fecharia a entrevista com uma resposta mais inspiradora e visionária, conectando tudo o que você trouxe nas anteriores: Amazônia, ancestralidade, biodiversidade, diversidade, tecnologia e o futuro da moda”.
Se este projeto pudesse deixar uma mensagem para a indústria da moda mundial, qual seria? E o que você acredita que precisamos aprender com a Amazônia quando pensamos no futuro da moda?
“Eu acredito que a principal mensagem é que o futuro da moda precisa ser mais diverso, mais consciente e, principalmente, mais conectado com a nossa essência. A Amazônia nos ensina que inovação não significa necessariamente abandonar o passado. Pelo contrário: existe uma enorme potência em olhar para a ancestralidade, para o conhecimento tradicional, para a biodiversidade e para aquilo que a natureza oferece e transformar tudo isso em possibilidades para o futuro. O que mais me impressionou nesse projeto foi perceber como sementes, fibras, tingimentos naturais, escamas e tantos outros elementos da biodiversidade amazônica podem ganhar novas interpretações dentro da moda, chegando até o nosso cotidiano de uma maneira contemporânea, sofisticada e possível. E acredito que essa é uma grande lição para a indústria: não precisamos escolher entre tradição e inovação. Podemos unir as duas. A inteligência artificial também entra nesse processo como uma ferramenta extraordinária para ampliar a criatividade, democratizar possibilidades e imaginar uma moda que talvez, no modelo tradicional, fosse muito mais difícil de realizar. Mas a tecnologia não substitui a história, a cultura, o talento ou a identidade de quem cria. Ela potencializa tudo isso. Para mim, o futuro da moda está justamente nessa união: ancestralidade e tecnologia, natureza e inovação, identidade e diversidade. E talvez a Amazônia esteja nos mostrando algo que a moda mundial precisa ouvir: o futuro pode estar justamente em aprender a valorizar aquilo que sempre esteve aqui”.
Ao unir ancestralidade, biodiversidade, diversidade e tecnologia, o projeto apresentado por Gislaine Balzano mostra que o futuro da moda pode ser construído sem deixar para trás as histórias e os conhecimentos que formam sua essência. Mais do que levar designers indígenas da Amazônia para uma plataforma internacional, a iniciativa propõe novas formas de criar, apresentar e ampliar vozes dentro da indústria fashion.