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Milão SS27: Os desfiles que marcaram o fim da Fashion Week

28 de setembro de 2026

#Desfiles

By: Redação

A Semana de Moda de Milão SS27 chegou ao fim neste domingo, 27 de setembro, depois de uma programação marcada por grandes nomes da indústria, novas direções criativas e diferentes interpretações sobre o que significa vestir-se para a próxima primavera/verão. Se Prada abriu a temporada colocando a saia no centro de uma coleção de 63 looks, os últimos dias ampliaram essa conversa para outros territórios: Gucci revisitou seus próprios códigos, Moschino levou pessoas comuns para a passarela, Bottega Veneta apostou no movimento e no artesanato, Ferragamo mergulhou nos anos 1940 e Giorgio Armani encerrou a semana com uma coleção que fala de continuidade e transformação.

Mais do que uma sequência de desfiles, o encerramento de Milão deixou evidente uma mudança de direção. Depois de temporadas dominadas pela ideia de luxo silencioso e por uma estética minimalista, a moda começa a recuperar cor, brilho, sensualidade, volumes e personalidade. Ao mesmo tempo, as coleções continuam interessadas em roupas que possam existir fora das passarelas, em uma tentativa de aproximar desejo e realidade.

Gucci: uma nova família de códigos

Um dos momentos mais aguardados do fim de semana foi o segundo desfile de Demna à frente da Gucci. Batizado de “The Store”, o espetáculo aconteceu dentro de uma reprodução de uma loja Gucci construída em um centro de convenções de Milão. O cenário não funcionava apenas como pano de fundo: modelos circulavam entre araras, bolsas e espelhos, transformando o próprio espaço de varejo em parte da narrativa da coleção.

A proposta refletiu a tentativa de Demna de entender e reorganizar uma casa que possui diferentes identidades acumuladas ao longo das décadas. A coleção passou por referências equestres, pelo universo aristocrático italiano, pelo glamour dos anos 1990 e por uma sensualidade associada à era de Tom Ford.

Entre os destaques estavam os looks de inspiração preppy, mas com uma atitude menos comportada: jaquetas bomber, camisas polo, peças de alfaiataria de ombros marcados, kilts xadrez, jeans presos por cintos com múltiplas fivelas e acessórios maximalistas. O resultado foi uma Gucci que mistura tradição e irreverência, passado e presente.

Moschino: quando a rua invade a passarela

Na sexta-feira, outro desfile chamou atenção não apenas pelas roupas, mas pela maneira como elas foram apresentadas. Em sua estreia à frente da Moschino, Loris Messina e Simone Rizzo, fundadores da Sunnei, levaram a coleção para o topo de um estacionamento em Milão e colocaram centenas de pessoas comuns caminhando pela passarela na direção oposta às modelos.

A escolha tinha uma mensagem direta: as roupas pertencem às pessoas que as usam. Em vez de criar uma separação entre modelos e público, a dupla transformou a passarela em uma espécie de rua movimentada, aproximando a coleção do cotidiano.

A estratégia também dialoga com uma tendência mais ampla observada em Milão nesta temporada. A moda parece menos interessada em apresentar uma fantasia completamente distante da realidade e mais disposta a mostrar como suas peças podem existir no mundo real. Isso não significa abandonar o espetáculo, mas encontrar novas maneiras de conectá-lo ao consumidor.

Bottega Veneta: o luxo deixa o corpo respirar

No sábado, Louise Trotter apresentou sua terceira coleção para a Bottega Veneta e aprofundou uma linguagem que vem construindo desde sua chegada à marca. Desta vez, a estilista partiu da ideia de transição entre as estações: o momento em que o corpo deixa as camadas de proteção do inverno e começa a se libertar para o verão.

Essa ideia apareceu na própria construção das roupas. Casacos de ombros levemente exagerados deram lugar a peças mais leves, enquanto franjas, crochê, renda artesanal e o tradicional intrecciato ganharam movimento. Uma das imagens mais interessantes da coleção foi a combinação de uma blusa e saia com franjas que se movimentavam a cada passo, criando uma sensação quase cinética.

A paleta também ganhou momentos de cor, com lilás, azul, amarelo-manteiga e vermelho intenso. Ao lado deles, o branco apareceu em construções de renda e crochê, reforçando o aspecto artesanal da coleção.

Trotter parece interessada em retirar o peso que muitas vezes acompanha o luxo italiano. O resultado é uma Bottega mais leve, fluida e corporal, sem abrir mão da sofisticação e da complexidade técnica que fazem parte da identidade da casa.

Ferragamo: passado e tecnologia se encontram

Também no sábado, Maximilian Davis apresentou uma das coleções mais interessantes do ponto de vista histórico. O ponto de partida foi um dos grandes símbolos da história da Ferragamo: a Invisible Sandal criada por Salvatore Ferragamo em 1947.

A peça, construída com uma estrutura de salto em formato de “F” e nylon transparente, levou Davis a pesquisar o universo da fotógrafa Lee Miller e do artista Man Ray, especialmente suas experiências com luz e solarização.

Essa referência histórica apareceu em uma coleção que recuperou a silhueta dos anos 1940, mas sem reproduzi-la literalmente. A cintura ganhou destaque e foi marcada por cintos masculinos, algumas vezes usados em duplicidade. As peças também exploraram tecidos translúcidos, couro, seda, algodão e linho.

O resultado foi uma coleção que equilibra sensualidade e construção. Vestidos e saias aparecem acompanhados por materiais transparentes, enquanto trench coats e peças de borracha colorida criam uma leitura mais contemporânea da relação entre corpo e roupa.

Roberto Cavalli: o glamour está de volta

Embora tenha acontecido antes do fim de semana, a coleção de Roberto Cavalli por Fausto Puglisi ajuda a explicar uma das mudanças de humor mais claras de Milão. Depois de temporadas dominadas pela discrição, o estilista voltou a apostar no excesso.

Minissaias, hot pants, tops frente única, jeans de cintura baixa, estampas animais, veludo devorê e bordados apareceram em uma coleção assumidamente glamourosa. Puglisi buscou referências em Courtney Love, na cultura pop dos anos 1990 e 2000 e no próprio arquivo da Roberto Cavalli.

A mensagem é clara: o maximalismo está recuperando espaço. E, em Milão, ele aparece menos como uma nostalgia literal e mais como uma resposta ao desejo de voltar a se vestir de maneira divertida, sensual e individual.

Giorgio Armani: a continuidade de um legado

O encerramento oficial da semana ficou por conta de Giorgio Armani, com a primeira coleção apresentada por Silvana Armani depois da morte do fundador da marca. Intitulada “Evoluzione”, a coleção partiu dos códigos que definiram a identidade da grife para pensar em sua continuidade.

A alfaiataria permaneceu no centro, mas ganhou novas proporções e materiais. Ombros marcados inspirados nos anos 1980 dividiram espaço com calças na altura dos joelhos, geometrias, vestidos ajustados e tecidos cintilantes.

A cartela passou por marfim, preto e dourado, enquanto borboletas apareceram em broches e colares como símbolo de metamorfose. A ideia de evolução também esteve presente na introdução de novos materiais, como o algodão, sem abandonar a elegância fluida característica de Armani.

O desfile ganhou, assim, um peso que ultrapassa a roupa. Depois de décadas em que Giorgio Armani construiu uma das linguagens mais reconhecíveis da moda italiana, a coleção de Silvana propôs continuidade sem transformar o arquivo em uma peça de museu.

O que fica de Milão

O fim de semana ajudou a consolidar algumas das principais mensagens da temporada SS27. A primeira é que o glamour está de volta, mas aparece acompanhado de novas formas de liberdade. Gucci mistura aristocracia, sensualidade e referências urbanas; Moschino aproxima a passarela das ruas; Bottega Veneta deixa o corpo respirar; Ferragamo transforma referências históricas em inovação; e Armani mostra que tradição também pode ser ponto de partida para mudança.

Outra tendência evidente é a valorização da roupa como objeto de desejo, mas também como objeto de uso. A temporada parece menos interessada em criar peças impossíveis e mais em transformar itens conhecidos: a saia, o blazer, o cinto, o jeans, o casaco, o vestido, por meio de proporções, materiais e styling.

Essa aproximação entre fantasia e realidade talvez seja a principal mensagem deixada por Milão. A moda continua querendo provocar desejo, mas agora parece entender que, para permanecer relevante, precisa também fazer sentido na vida de quem está do outro lado da passarela.

E, depois de uma semana que começou com 63 saias na Prada e terminou com a elegância em transformação de Armani, uma coisa ficou evidente: a temporada SS27 não está propondo um único uniforme. Está devolvendo à moda algo que parecia ter ficado em segundo plano nos últimos anos a liberdade de escolher, misturar e construir uma imagem própria.

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