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Paris Fashion Week SS27: os destaques do quarto dia

2 de outubro de 2026

#Desfiles

By: Redação

A Paris Fashion Week SS27 chegou ao seu quarto dia com uma programação que colocou algumas das principais maisons do calendário diante de um mesmo desafio: atualizar seus códigos sem perder aquilo que as tornou reconhecíveis. Na quinta-feira, 1º de outubro, Chloé, Carven, Balenciaga, Rick Owens, Schiaparelli e Isabel Marant apresentaram suas coleções para a primavera-verão 2027, em uma sequência de desfiles que passou do romantismo à desconstrução, da alfaiataria à fantasia.

Entre os momentos mais comentados esteve a Chloé de Chemena Kamali, que colocou renda, lingerie e alfaiataria em uma mesma narrativa e contou com a presença da brasileira Carol Trentini na passarela. A Carven apresentou a estreia de Kai Nesselrath na direção criativa, enquanto Pierpaolo Piccioli avançou em sua construção da nova Balenciaga. Rick Owens trouxe suas “boas bruxas” para uma passarela cercada por água, Schiaparelli transformou a alfaiataria em protagonista e Isabel Marant mergulhou na Los Angeles dos anos 1960.

Chloé: romantismo com força

A manhã começou com a Chloé, que apresentou a coleção “Obsession”, de Chemena Kamali, no Observatório de Paris. A proposta partiu de uma relação intensa com os próprios códigos da maison, especialmente o romantismo, o trabalho artesanal e a feminilidade leve, mas trouxe esses elementos para uma leitura mais sensual e contemporânea.

A renda vazada foi uma das protagonistas. Vestidos, blusas e peças de alfaiataria receberam diferentes interpretações do material, enquanto mangas volumosas, babados e saias amplas reforçaram o lado romântico da coleção. Em contraste, elementos de lingerie apareceram de maneira mais explícita, transformando partes das blusas em estruturas semelhantes a pequenos arneses.

O diálogo entre delicadeza e estrutura também apareceu nos casacos de proporções generosas, incluindo modelos inspirados em capas de chuva e peças de inspiração náutica. A coleção ainda recuperou o smoking “Noël”, criado pela maison em 1972, reafirmando a importância da alfaiataria dentro da história da Chloé.

E foi justamente nesse encontro entre transparência e alfaiataria que Carol Trentini ganhou destaque. A brasileira desfilou com um look preto que combinava renda transparente e calça de alfaiataria, traduzindo em um único visual a principal tensão da coleção: sensualidade e sofisticação caminhando lado a lado.

O desfile também teve um momento inesperado: Apple Martin, filha de Gwyneth Paltrow e Chris Martin, fez sua estreia nas passarelas com um vestido branco de estética boho.

Carven: uma nova manhã

Na sequência, a Carven apresentou a estreia de Kai Nesselrath, novo diretor de criação da maison. O designer, que passou anteriormente pela alfaiataria da Saint Laurent, escolheu uma ideia íntima para inaugurar seu capítulo: a imagem dos lençóis de uma cama pela manhã.

A referência apareceu em vestidos cujas bordas pareciam dobradas, drapeados que escorriam pelo corpo e silhuetas que davam a sensação de movimento. Nesselrath também revisitou o glamour das décadas de 1950 e 1960, período importante para a história da Carven, em looks em tons de azul-claro e rosa, além de polos e tops inspirados em pijamas.

Ao mesmo tempo, a coleção trouxe uma visão mais contemporânea do guarda-roupa funcional. Casacos longos, vestidos avental, saias de denim e peças inspiradas em roupas de trabalho ganharam cortes mais escultóricos.

Pequenos detalhes deram personalidade ao primeiro capítulo: brincos em formato de aparas de lápis, acessórios de cabelo dourados e trabalhos manuais aplicados às peças. A ideia de leveza também ganhou importância diante das temperaturas cada vez mais altas, com roupas pensadas para acompanhar o corpo sem excesso de peso.

Balenciaga: a alta-costura entra no cotidiano

Um ano depois de assumir a Balenciaga, Pierpaolo Piccioli avançou em sua tentativa de estabelecer uma nova identidade para a maison. Se a alta-costura apresentada anteriormente mostrou o lado mais monumental de sua visão, o desfile SS27 buscou levar essa linguagem para o guarda-roupa cotidiano.

A proposta ficou evidente desde o primeiro look: uma camisa branca tradicional recebeu fileiras de costuras que criavam um efeito de peplum. A mesma técnica foi aplicada a uma camiseta branca. Até o jeans ganhou tratamento especial: Piccioli introduziu modelos cortados no viés, uma novidade dentro da história da marca.

A coleção também marcou uma mudança importante de atmosfera. Cores vibrantes como rosa, azul-cobalto, laranja e verde apareceram em jaquetas, casacos e bolsas, enquanto calças brancas amplas, jeans rasgados e vestidos fluidos equilibraram a produção.

Nos pés, a mudança foi igualmente clara: sandálias rasteiras, chinelos e tênis de aparência mais delicada substituíram a lógica dos modelos exageradamente robustos associados à era anterior da Balenciaga. Bolsas grandes e macias, sem logotipos aparentes, reforçaram a ideia de um luxo mais discreto.

A mensagem de Piccioli é clara: a alta-costura não precisa ficar isolada da vida real. Ela pode aparecer na construção de uma camiseta, no corte de um jeans ou na maneira como uma jaqueta comum ganha novas proporções.

Rick Owens: as boas bruxas de Paris

No desfile de Rick Owens, a passarela ganhou uma dimensão quase teatral. Uma longa estrutura atravessava a piscina do Palais de Tokyo, enquanto jatos de água criavam fontes dos dois lados do percurso.

Depois das figuras quase guerreiras da temporada anterior, Owens apresentou uma espécie de coven de “boas bruxas”, com longos vestidos cerimoniais confeccionados a partir de tiras industriais pesadas reaproveitadas. A estética mantinha a imponência característica do designer, mas adicionava uma sensação de leveza.

Um dos destaques foi o vestido “Clotilde”, feito de seda de paraquedas. O material criava uma silhueta trapezoidal que parecia ganhar movimento próprio quando tocada pelo vento. Em outro extremo, o denim tingido com enxofre apareceu em túnicas, calças amplas e microjaquetas.

O couro também ganhou novas proporções, enquanto as tradicionais botas de plataforma deram espaço a sandálias e chinelos com detalhes brilhantes. No final, tules e estruturas de elástico trouxeram uma interpretação quase alienígena da lingerie.

É uma coleção que reforça uma das características mais importantes de Rick Owens: criar um universo próprio e fazer com que a moda pareça pertencer a ele, e não o contrário.

Schiaparelli: a alfaiataria como espetáculo

Na Schiaparelli, Daniel Roseberry voltou seu olhar para um dos elementos mais importantes do arquivo da maison: o casaco. O desfile foi ambientado como uma espécie de clube noturno, com mesas, cadeiras e lustres criando uma atmosfera teatral.

A coleção partiu da ideia de transformar códigos da alta-costura em um guarda-roupa mais modular. O icônico casaco Schiaparelli foi desconstruído e combinado a diferentes partes de baixo, aproximando a linguagem surrealista da maison de uma lógica mais funcional.

A estratégia também passa pela influência do sportswear americano e pelas referências pessoais de Roseberry, que nasceu no Texas. A cartela se concentrou em preto, osso e manteiga, criando uma base mais limpa para que os detalhes de construção ganhassem protagonismo.

A coleção mostra uma Schiaparelli interessada em ampliar seu ready-to-wear sem abandonar o DNA de espetáculo. O surrealismo continua presente, mas aparece cada vez mais na construção e nos detalhes e não apenas em vestidos de impacto.

Isabel Marant: a sensualidade da Califórnia dos anos 1960

Fechando o dia, Isabel Marant levou para Paris uma visão da Los Angeles dos anos 1960. A diretora criativa Kim Bekker encontrou inspiração nas fotografias de Sam Haskins, especialmente na maneira como o fotógrafo registrava mulheres fortes e sensuais sob uma luz suave e quase cinematográfica.

A coleção equilibrou sensualidade e praticidade. Peças mais reveladoras dividiram espaço com alfaiataria, blusas, saias, shorts, vestidos e acessórios que mantêm a espontaneidade característica da marca.

A proposta também reforça uma ideia importante para a nova fase da Isabel Marant: não existe apenas uma mulher Marant. A coleção trabalha diferentes graus de feminilidade, alternando minimalismo e ornamentação, pele à mostra e peças mais fechadas.

Paris entre o passado e o futuro

O quarto dia da Paris Fashion Week SS27 reforçou uma das principais características desta temporada: as grandes maisons estão revisitando seus próprios arquivos, mas não para reproduzi-los literalmente.

Na Chloé, a renda romântica encontrou a lingerie e a alfaiataria. Na Carven, os anos 1950 e 1960 ganharam leveza contemporânea. Na Balenciaga, a alta-costura foi transportada para camisetas e jeans. Rick Owens transformou materiais industriais em vestidos quase etéreos, enquanto Schiaparelli aproximou o surrealismo da lógica modular do guarda-roupa. Isabel Marant, por sua vez, voltou à Los Angeles dos anos 1960 para construir uma nova leitura de sensualidade.

Se existe uma palavra para resumir o dia, ela é reinterpretação: para o verão 2027, olhar para trás parece ser uma das maneiras mais interessantes de imaginar para onde a moda pode ir.

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