As semanas de moda internacionais de Primavera/Verão 2027 deixaram uma mensagem clara: vestir-se voltou a ser um exercício de expressão pessoal. Entre Nova York, Londres, Milão e Paris, os desfiles combinaram peças clássicas com styling inesperado, sensualidade, cores vibrantes e detalhes que valorizam o trabalho manual. Agora, com a chegada da SPFW N61, de 13 a 18 de outubro, a expectativa é observar como essas referências dialogam com a identidade da moda brasileira: conhecida por sua diversidade criativa, pela relação com o corpo e pela exploração de materiais e técnicas artesanais.
Não se trata de esperar que as marcas nacionais reproduzam literalmente o que apareceu nas passarelas estrangeiras. O mais interessante está justamente na adaptação: como uma tendência global pode ganhar novos sentidos quando encontra outros repertórios culturais, necessidades climáticas e maneiras de vestir? A temporada brasileira promete ser um ponto de observação importante para essa conversa.
1. A saia assume o protagonismo
Se existe uma peça que ganhou destaque nas coleções internacionais, é a saia. Na Prada, em Milão, ela apareceu como eixo central da coleção, em comprimentos variados, com ênfase no modelo midi e em detalhes decorativos. Outras grifes também exploraram a peça em versões bordadas, transparentes ou combinadas a partes de cima que contrastam com seu volume e sua construção.
A tendência aponta para um guarda-roupa que não depende de produções elaboradas para criar impacto: uma saia com textura, acabamento ou proporção marcante pode ser o ponto de partida de todo o visual. Na SPFW, vale observar como os estilistas brasileiros trabalham comprimentos, movimento e materiais, especialmente em peças que equilibram frescor e construção.
2. Lingerie à mostra: sensualidade sem regras fixas
Sutiãs, tops inspirados em lingerie e peças íntimas deixaram de ficar restritos à camada de baixo e ganharam espaço como protagonistas dos looks. A proposta apareceu em diferentes cidades, de Nova York a Milão, em combinações com alfaiataria, saias, transparências e peças mais esportivas.
Mais do que uma exposição literal do corpo, a tendência trabalha com contrastes: renda com tecidos estruturados, lingerie sob blazers e peças delicadas em composições urbanas. Na moda brasileira, essa linguagem pode ganhar novas leituras a partir da relação com o calor, dos recortes e da liberdade de construção das silhuetas.
3. Transparências e tecidos leves
As transparências continuam no repertório internacional, mas aparecem em propostas que vão do romantismo à sensualidade. Vestidos leves, saias translúcidas e tecidos finos criam sobreposições e deixam a roupa mais próxima do corpo. Em Paris, a tendência se encontrou com peças fluidas e soluções pensadas para temperaturas elevadas.
O efeito depende menos de revelar tudo e mais de construir camadas, explorar texturas e brincar com o que fica visível ou escondido. Para a SPFW, essa direção conversa tanto com a busca por roupas adequadas ao clima brasileiro quanto com a possibilidade de explorar rendas, organza, tule e outros materiais em composições autorais.
4. Cores intensas e combinações inesperadas
A temporada SS27 também se afastou da ideia de que a primavera e o verão precisam se resumir a tons suaves. Em Nova York, o azul-cobalto ganhou força ao lado de outras cores marcantes; em Paris, combinações contrastantes e tons terrosos, como o verde-oliva, apareceram entre as propostas da estação. O resultado é uma paleta que permite tanto produções monocromáticas quanto encontros mais ousados.
Na SPFW, o interesse estará em como essas cores dialogam com a cartela de cada marca e com referências brasileiras. Em vez de simplesmente repetir combinações vistas no exterior, os estilistas podem usar a cor como ferramenta para construir identidade, destacar texturas e transformar peças de modelagem clássica.
5. Artesanato e imperfeição como linguagem
Em Londres, o trabalho manual e os acabamentos que deixam à mostra o processo de construção das roupas ganharam atenção. Barras inacabadas, aplicações tridimensionais e combinações de materiais reforçaram uma valorização do fazer artesanal em oposição à aparência excessivamente perfeita e padronizada.
Essa direção tem uma conexão especial com a moda brasileira, que reúne diferentes tradições de bordado, crochê, renda, tecelagem e experimentação têxtil. Na SPFW, o ponto de interesse não será apenas a presença dessas técnicas, mas a maneira como aparecem em propostas contemporâneas: como elementos estruturais, superfícies expressivas ou recursos que valorizam o trabalho de comunidades e profissionais especializados.
6. Clássicos reinventados
Outra mensagem importante da temporada foi a atualização de peças conhecidas. Camisas, alfaiataria, saias e casacos apareceram em proporções diferentes, com materiais inesperados ou combinações que desafiam o uso tradicional. Em Paris, o clássico ganhou leveza; em Milão, peças familiares receberam acabamentos decorativos e acessórios de impacto.
Essa abordagem reforça uma mudança de perspectiva: a novidade nem sempre depende de criar uma peça completamente inédita. Às vezes, ela está em alterar o comprimento, deslocar um detalhe, misturar referências ou modificar a maneira de combinar itens do cotidiano. Na SPFW, será interessante observar como as marcas brasileiras transformam esses códigos em propostas conectadas às suas próprias identidades.
O que esperar da SPFW N61?
Com 26 desfiles no calendário, a SPFW N61 reúne criadores com trajetórias, técnicas e linguagens distintas, de nomes como Alexandre Herchcovitch, Dendezeiro, João Pimenta e Santa Resistência às estreantes Ammi e Hisha. Essa diversidade torna a semana de moda um espaço para acompanhar não apenas a chegada de tendências internacionais, mas também a resposta autoral dos estilistas brasileiros.
A lingerie à mostra, as saias protagonistas, as transparências, as cores intensas e o artesanato são pistas da temporada global: não previsões definitivas sobre o que cada marca apresentará. A força da SPFW estará em mostrar como essas referências podem ser transformadas, questionadas ou até recusadas por criadores que trabalham a partir de outros contextos.
No fim, a pergunta mais interessante não é quais tendências internacionais serão copiadas, mas quais delas encontrarão novas possibilidades na moda brasileira. É nessa tradução criativa que a SPFW pode revelar o que há de mais relevante para a próxima temporada.