Alicia Silverstone completa 50 anos neste domingo, 4 de outubro, mas sua imagem continua diretamente associada a uma personagem que ajudou a definir a estética de uma geração: Cher Horowitz, protagonista de As Patricinhas de Beverly Hills (Clueless). Lançado em 1995, o filme transformou a adolescente de Beverly Hills em uma das personagens mais reconhecíveis da moda dos anos 1990, graças a um guarda-roupa que combinava referências escolares, peças de grife, acessórios marcantes e uma estética preppy que continua sendo revisitada pela indústria fashion.
Um guarda-roupa que virou personagem
Cher não era apenas uma adolescente bem-vestida. A roupa funcionava como parte da narrativa e ajudava a construir sua personalidade. Sob direção da figurinista Mona May, a personagem apareceu em cerca de 60 looks ao longo do filme, misturando peças de diferentes origens com referências de alta moda.
O resultado era um guarda-roupa exagerado, feminino e colorido, que traduzia o universo de uma jovem rica de Beverly Hills sem deixar de dialogar com o espírito fashion dos anos 1990. Alaïa, Calvin Klein, Mary Janes, meias até os joelhos, minissaias, conjuntos coordenados e bolsas pequenas entraram para o imaginário coletivo.
O xadrez amarelo que entrou para a história
Poucas roupas do cinema são tão imediatamente reconhecíveis quanto o conjunto xadrez amarelo usado por Cher. O visual, formado por blazer e saia coordenados, camiseta branca, meias brancas até os joelhos e sapatos Mary Jane, tornou-se uma das imagens definitivas da moda dos anos 1990.
Curiosamente, o amarelo não foi a primeira opção. Segundo Mona May, versões em azul e vermelho foram testadas antes de a equipe chegar ao conjunto amarelo. A escolha acabou criando uma das imagens mais emblemáticas do filme e, décadas depois, o look continua aparecendo em fantasias, referências de moda e releituras fashion.
Da tela para as passarelas
O impacto de Cher ultrapassou o cinema e chegou diretamente à moda. Em 2018, a Versace levou para a passarela uma coleção com conjuntos xadrez coloridos que remetiam claramente à estética de Clueless, mostrando como os códigos visuais do filme continuavam relevantes mais de duas décadas depois de seu lançamento.
O interesse também acompanha os ciclos de nostalgia da moda. Minissaias, meias altas, conjuntos coordenados, vestidos tipo camisola, bolsas pequenas e referências preppy voltaram repetidamente às coleções e ao street style, fazendo com que elementos associados a Cher fossem reinterpretados por novas gerações.
O vestido Alaïa e o luxo pop
Outro momento fashion inesquecível é o vestido preto de Alaïa usado por Cher. A peça aparece em uma das cenas mais famosas do filme e reforça a relação entre a personagem e o universo do luxo.
A presença da grife não estava inicialmente prevista daquela maneira no roteiro. Segundo Mona May, conseguir o vestido foi um processo complicado porque a produção tinha um orçamento limitado para figurino. A equipe precisou localizar a peça e negociar seu uso, enquanto a própria referência à Alaïa acabou incorporada ao diálogo do filme.
Alicia e Cher: duas relações diferentes com a moda
A curiosidade é que Alicia Silverstone não se identificava inicialmente com o universo fashion de Cher. Em entrevista à Vogue, a atriz contou que, antes de Clueless, tinha pouco interesse por moda e costumava usar praticamente o mesmo uniforme pessoal: jeans e uma camiseta verde da Gap.
Durante as gravações, chegou a se incomodar com a quantidade de provas e trocas de roupa. Foram cerca de 64 mudanças de figurino para a personagem. Só depois de ver os looks prontos em cena é que começou a compreender a força daquele trabalho.
Essa diferença entre atriz e personagem tornou o resultado ainda mais interessante. Cher era uma criação exagerada, enquanto Alicia tinha um estilo pessoal muito mais discreto. A British Vogue, ao revisitar o guarda-roupa da atriz durante sua ascensão nos anos 1990, destacou justamente essa diferença: fora das telas, Silverstone aparecia com silhuetas mais enxutas, ternos pretos, sandálias de tiras e calças de alfaiataria.
Por que Cher continua atual?
Três décadas depois, o guarda-roupa de Cher continua sendo revisitado porque seus códigos ultrapassaram a ideia de figurino de cinema. O filme antecipou combinações que hoje fazem parte do repertório fashion: o conjunto coordenado, a mistura entre peças casuais e itens sofisticados, o vestido tipo camisola, a minissaia, a meia alta e o uso de acessórios como protagonistas.
Mais do que reproduzir os looks literalmente, a moda passou a revisitar o espírito de Clueless: uma estética divertida, feminina e assumidamente construída. Em um momento em que a indústria volta constantemente aos anos 1990 e ao início dos anos 2000, Cher permanece como uma referência visual pronta para ser reinterpretada. A própria Vogue já apontou que diversos elementos apresentados pelo filme em 1995 anteciparam tendências que voltariam a aparecer na moda décadas depois.
50 anos de Alicia, 30 anos de Cher
Aos 50 anos, Alicia Silverstone carrega uma relação curiosa com a moda: sua personagem mais famosa nasceu justamente de um universo com o qual ela dizia não ter grande familiaridade. Ainda assim, foi sua interpretação que deu vida a Cher Horowitz e ajudou a transformar seus looks em referências permanentes da cultura pop.
Se hoje o xadrez amarelo, as Mary Janes, as meias altas e o estilo preppy continuam reaparecendo, parte dessa memória passa por Beverly Hills, por uma produção de 1995 e por uma personagem que tinha uma resposta para quase tudo: “As if!”.