Enquanto o calendário global da moda se concentra em Paris, Milão, Londres e Nova York, o Carnaval brasileiro ocupa um espaço à parte, não apenas como evento cultural, mas como uma verdadeira Fashion Week a céu aberto, onde a criatividade, o requinte e a estética se encontram nas ruas, avenidas e blocos de todo o país. Há quem diga que o Brasil não tem sua Alta-Costura, mas será mesmo que os figurinos de Carnaval não se aproximam desse primor ao fazer a moda? A folia funciona como um laboratório de estilo que coloca design, artesanato, narrativa e expressão pessoal no centro do olhar coletivo.
Do croqui à avenida: a moda em performance
O processo criativo que envolve o Carnaval lembra, em muitos sentidos, o desenvolvimento de uma coleção de Alta-Costura. Vale lembrar que para ser considerado uma coleção hautecouture, a marca deve ser autorizada pela Câmara Sindical da Alta Costura e atualmente nenhuma marca brasileira conquistou este título. Mas, é claro que muitas das nossas produções se assemelham ao rigor técnico de muitas maisons. Tudo começa com ideias, desenhos e conceitos que depois ganham forma na escolha de tecidos, texturas, bordados e acabamentos que dialogam com ritmo, movimento e identidade visual. A diferença é que, no Carnaval, o resultado não fica em um salão de desfile, ele toma conta das ruas, transformando cada look em performance visual e cultural.
Trajes que misturam técnica e fantasia
Os trajes carnavalescos incorporam técnicas têxteis e artesanais que vão desde o crochê feito à mão e aplicações de cristais até franjas, plumas e bordados elaborados. Inclusive, em 2026, Juliana Paes usou um look confeccionado por Dolce&Gabanna, que possui uma longa história no luxo. Algumas criações são verdadeiras obras de arte vestíveis, resultado de semanas de trabalho intenso que ultrapassam a lógica do “fast fashion” para abraçar uma estética que mistura tradição com inovação, assim como peças de alta costura.
Identidade brasileira como assinatura estética
O diferencial do Carnaval não está apenas nas peças chamativas, mas na forma como cada elemento carrega significados afetivos, regionais e simbólicos. Cores vibrantes, combinações inesperadas, referências culturais e narrativas pessoais transformam a folia em um espaço onde a moda deixa de ser apenas uma linguagem visual para se tornar um território de expressão identitária.
Uma passarela sem fronteiras
O Carnaval funciona como uma passarela contínua e democrática: não existe backstage separado do público, nem barreiras entre criadores e espectadores. Todos participam, todos observam e todos interpretam esteticamente. As modas que emergem do Carnaval, seja o revival dos anos 2000, a presença forte do crochet artesanal, o uso criativo das franjas ou a estética maximalista de cores e texturas, já começaram a reverberar fora do período de festa. Influenciam editoriais, campanhas publicitárias e street style, evidenciando que a estética carnavalesca tem impacto direto no mercado da moda nacional e global.
O Carnaval 2026 mostrou, mais uma vez, que a moda brasileira não está apenas nos calendários tradicionais: ela pulsa na rua, cria diálogo com cultura, história e identidade, e se reinventa como um espaço onde estilo, performance e expressão pessoal convergem em desfile contínuo, dia após dia, bloco após bloco.