A Chanel encerrou a segunda-feira da Paris Fashion Week SS27, 5 de outubro, com uma coleção que olha para o passado da maison sem ficar presa a ele. Sob a direção criativa de Matthieu Blazy, os códigos mais reconhecíveis da grife francesa ganharam novas formas, materiais e proporções em uma apresentação que explorou as diferentes versões de uma mesma mulher. O ponto de partida foi Gabrielle Chanel, não apenas a estilista que criou uma das casas mais importantes do mundo, mas a mulher por trás do nome, com suas diferentes fases, interesses e personalidades.
“Throughout their lives, women become multiple selves”, escreveu Blazy nas notas da coleção. A ideia de que uma mulher pode carregar diferentes identidades ao longo da vida também serviu para o designer repensar a própria Chanel. Em vez de reproduzir os códigos históricos da maison, ele os colocou em movimento, permitindo que o tailleur, o tweed e os acessórios clássicos assumissem novas interpretações.
Um novo capítulo para os ícones da Chanel
Ao longo dos 83 looks apresentados no Grand Palais, Blazy trabalhou com aquilo que talvez seja o maior desafio de uma maison centenária: fazer com que seus símbolos continuem desejáveis sem parecerem repetitivos.
O tradicional tweed, por exemplo, apareceu em versões mais flexíveis, com destaque para o novo “smocked tweed”, desenvolvido para oferecer elasticidade e movimento semelhantes aos de peças esportivas. O tecido mantém a aparência sofisticada associada à Chanel, mas ganha uma funcionalidade inesperada. O clássico tailleur também foi desconstruído, com jaquetas usadas diretamente sobre a pele e saias em comprimentos mais curtos.
A transformação não ficou restrita aos tecidos. O tradicional sapato bicolor apareceu em estampas de leopardo e tigre, além de versões em azul-claro e prata. As bolsas matelassê ganharam novas proporções e foram apresentadas em preto, branco e vinho, além de modelos com estampas de zebra combinadas a cores vibrantes.
Do clássico ao sensual
Uma das principais características da coleção foi a maneira como Blazy aproximou a alfaiataria da sensualidade. Os famosos conjuntos Chanel perderam parte da rigidez e passaram a aparecer com pele à mostra, cintura mais baixa e recortes que revelam o corpo.
Algumas jaquetas foram usadas sem nada por baixo, presas apenas por delicadas correntes douradas. Em outras propostas, a alfaiataria dividiu espaço com corsets, lingerie e transparências. Saias receberam painéis que criavam movimento durante a caminhada, enquanto minissaias plissadas foram combinadas a jaquetas curtas.
A sensualidade, porém, não substituiu a elegância característica da maison. Ela aparece como mais uma possibilidade dentro do guarda-roupa Chanel, exatamente de acordo com a ideia de Blazy de que uma mulher não precisa escolher uma única identidade.
Uma Chanel que também sabe brincar
Se o desfile teve um conceito central, foi o da liberdade. O cenário do Grand Palais ajudou a construir essa atmosfera: dezenas de pássaros brancos ficaram suspensos sob a enorme cúpula de vidro, criando uma imagem de movimento e leveza.
A referência aos pássaros também dialogou com uma faceta menos conhecida de Gabrielle Chanel. Entre as imagens utilizadas por Blazy em seu painel de inspiração estavam fotografias da estilista em diferentes momentos de sua vida, inclusive registros mais descontraídos e bem-humorados. O designer procurou justamente mostrar uma Chanel diferente daquela figura austera frequentemente associada à história da maison.
O resultado apareceu nas roupas por meio de cores intensas, estampas animais e combinações inesperadas. Um dos destaques foi o tweed em vermelho e branco com desenho de tigre, enquanto outras peças apostaram em combinações de azul, amarelo, verde, vermelho e dourado.
A bolsa 2.55 volta à origem
Um dos momentos mais simbólicos do desfile aconteceu justamente no início e no fim. A modelo Dyanira Hurbuscher abriu e encerrou a apresentação carregando a 2.55 pessoal de Gabrielle Chanel, retirada dos arquivos da maison.
Criada em 1955, a bolsa que deu nome ao modelo se tornou um dos objetos mais reconhecíveis da história da Chanel. Ao colocar a peça original nas mãos da mesma modelo que aparece nos dois extremos do desfile, Blazy criou uma espécie de moldura para sua coleção: o passado abre a narrativa, enquanto as novas interpretações dos códigos da casa apontam para o futuro.
A escolha também reforça uma ideia importante da coleção. O arquivo não aparece como algo intocável. Ele funciona como ponto de partida para novas possibilidades.
Leveza como luxo
A coleção SS27 também marca uma evolução importante na linguagem de Blazy para Chanel. Se suas primeiras propostas já buscavam atualizar os códigos tradicionais da maison, agora o designer parece ainda mais interessado em mostrar que o luxo pode ser confortável, flexível e divertido.
O novo tweed elástico é talvez o melhor exemplo disso. Ao unir a aparência de um tecido historicamente associado à Chanel com a liberdade de movimento típica do sportswear, Blazy cria uma peça que preserva a memória da maison enquanto responde aos desejos contemporâneos.
Essa combinação entre herança e novidade aparece em praticamente toda a coleção: o tailleur ganha pele à mostra, a bolsa clássica fica mais descontraída, o sapato bicolor recebe estampas, o tweed se movimenta e a alfaiataria encontra a lingerie.
O novo rosto da Chanel
O desfile também consolida o primeiro ano de Matthieu Blazy à frente da Chanel. Em pouco tempo, o designer vem construindo uma identidade que não abandona os símbolos da maison, mas tenta devolvê-los ao território do desejo.
O resultado já repercute comercialmente. Segundo dados citados pelo The Guardian, a Chanel apareceu no topo do Lyst Index no período mais recente, enquanto os resultados financeiros reportados para o primeiro semestre de 2026 indicaram crescimento de 16% nas vendas.
Mais do que uma mudança estética, Blazy parece estar propondo uma nova relação com o patrimônio da Chanel. Em vez de escolher entre tradição e novidade, ele trabalha com as duas coisas ao mesmo tempo.
Uma mulher, muitas Chanel
No fim, a coleção SS27 não fala apenas sobre Gabrielle Chanel. Fala sobre a própria ideia de identidade feminina. É essa multiplicidade que torna a coleção relevante. Ao invés de criar uma única imagem de mulher Chanel, Matthieu Blazy apresenta várias e mostra que todas podem coexistir.
Para encerrar a Paris Fashion Week, não poderia haver uma mensagem mais apropriada: a Chanel do futuro não precisa abandonar seus ícones. Precisa apenas permitir que eles sejam livres para mudar.