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Chapeleiro Davi Ramos transforma moda em arte na exposição “Moda entre olhares”

5 de outubro de 2026

#Destaque

By: Redação

Quando uma roupa deixa de ser apenas uma roupa? Na nova exposição de Davi Ramos, a resposta passa pelo olhar. Conhecido por seu trabalho como stylist e chapeleiro, o profissional transforma peças, imagens e memórias de sua trajetória em matéria para uma experiência que aproxima moda e arte. Intitulada “Moda entre olhares”, a mostra ocupa o Instituto ViaFoto, em São Paulo, a partir de 10 de outubro, com curadoria de Paulo Borges, e propõe uma nova leitura para a moda brasileira a partir da fotografia, do styling e da criação autoral.

A exposição integra as celebrações dos 30 anos da São Paulo Fashion Week e marca uma mudança de formato para Davi. Depois de estrear nas passarelas da SPFW em 2025, o stylist optou por não repetir a lógica de um desfile e encontrou na exposição uma maneira mais ampla de apresentar sua história. A inspiração veio de uma viagem a Paris, em março deste ano, quando visitou exposições dedicadas à moda e ao bordado.

Foto: Gustavo Hipólito.

Quando a roupa encontra a arte

Mais do que apresentar peças, “Moda entre olhares” parte da ideia de que uma roupa também pode ser objeto de memória, expressão e transformação. A exposição coloca o vestuário em diálogo com a fotografia e com intervenções visuais, deslocando as peças de seus contextos originais para criar novas interpretações.

Esse processo aproxima o trabalho de Davi de uma lógica muito presente na arte contemporânea: o objeto não precisa permanecer preso ao significado que tinha quando foi criado. Uma roupa pode carregar uma época, uma identidade ou uma referência estética e, quando colocada diante de outro olhar, ganhar novos sentidos.

É essa transformação que está no centro da mostra. As peças selecionadas por Davi não são apresentadas como uma simples retrospectiva. Elas são recriadas visualmente a partir de styling, chapéus, maquiagem e fotografia.

Um encontro de gerações da moda brasileira

O primeiro núcleo da exposição reúne 21 looks de criadores brasileiros de diferentes gerações. A seleção passa por nomes como André Lima, Walter Rodrigues, João Pimenta, Fernanda Yamamoto, Ronaldo Fraga, Neon, Amapô e Ateliê Mão de Mãe, entre outros.

Foto: Gustavo Hipólito.

A escolha funciona também como uma homenagem à história da São Paulo Fashion Week e aos estilistas que ajudaram a construir diferentes momentos da moda brasileira. Davi selecionou tanto peças de profissionais com quem já trabalhou quanto de criadores com os quais nunca havia colaborado.

Entre as peças está ainda um look de seu próprio desfile, realizado em 2025, utilizado como símbolo de sua estreia nas passarelas. Assim, sua trajetória pessoal se encontra com uma memória maior da moda nacional.

O styling como ferramenta de criação

Foto: Gustavo Hipólito.

É nesse ponto que o trabalho de Davi ganha mais uma dimensão. Ao lado dos looks selecionados, entram os chapéus de sua nova coleção, “Liberdade”, além de intervenções do maquiador Daniel Hernandez. As fotografias são assinadas por Gustavo Hipólito, que registra as produções sob uma perspectiva contemporânea.

O resultado mostra o styling para além da função de combinar roupas e acessórios. Aqui, ele aparece como uma ferramenta de criação de imagem. A escolha de um chapéu, a construção de uma maquiagem, o enquadramento de uma fotografia e a maneira como um corpo ocupa determinado espaço passam a interferir na leitura da roupa.

É uma operação muito próxima da linguagem artística: existe uma obra de partida, mas também existe uma interpretação. O stylist atua nesse intervalo entre aquilo que a roupa é e aquilo que ela pode comunicar.

Chapéus que contam histórias

Foto: Gustavo Hipólito.

O segundo núcleo amplia essa relação entre moda e imagem ao reunir 18 fotografias de adereços de cabeça criados por Davi ao longo da carreira. Os registros passam por fotógrafos como Bob Wolfenson, JR Duran, Gui Paganini, Debby Gram, Henrique Gendre e a dupla Mar+Vin.

Os chapéus ocupam um lugar particular na trajetória de Davi. Sua criação começou a ganhar força justamente a partir do trabalho de styling, quando percebeu a necessidade de desenvolver acessórios específicos para determinadas imagens. Ao longo dos anos, essa pesquisa se transformou em uma linguagem autoral, com peças que transitam entre moda, escultura e objeto.

Na exposição, portanto, o chapéu deixa de ser apenas complemento do vestuário. Ele assume protagonismo e passa a ser observado como elemento de construção de identidade e de composição visual.

Moda que também pode ser escultura

A terceira parte da mostra apresenta esculturas têxteis e instalações assinadas pelo próprio Davi, ampliando ainda mais os limites entre vestir e criar.

A escolha reforça uma característica presente em toda a exposição: a moda não aparece apenas como produto ou tendência, mas como matéria-prima para uma investigação estética. Tecidos, volumes, formas, adornos e corpos deixam de cumprir exclusivamente uma função prática e passam a construir uma experiência visual.

A aproximação entre moda e arte não é novidade, mas ganha força quando o vestuário é tratado como uma linguagem capaz de registrar comportamentos, identidades e mudanças culturais. Nesse sentido, “Moda entre olhares” olha para a roupa não apenas pelo que ela veste, mas pelo que ela representa.

Uma exposição sobre memória e novos olhares

A própria ideia de “olhares” no título da mostra funciona como uma espécie de manifesto. Afinal, uma peça de moda nunca possui apenas uma leitura. Existe o olhar de quem cria, de quem veste, de quem fotografa, de quem observa e, agora, de quem revisita aquela peça anos depois.

Ao reunir criações de diferentes momentos da moda brasileira, fotografias de sua carreira e trabalhos autorais, Davi constrói um panorama de aproximadamente quatro décadas de atuação no universo do estilo. A exposição transforma sua trajetória em uma espécie de arquivo vivo, no qual passado e presente convivem sem que um precise apagar o outro.

E aí que está a principal força de “Moda entre olhares”: mostrar que a moda também é capaz de preservar memória, provocar interpretações e produzir arte. Quando uma roupa muda de contexto, ela não perde sua história. Ganha outra.

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TAGS:

arte

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