O chinelo que atravessa praias, calçadas e verões brasileiros ganhou uma nova leitura em um dos endereços mais importantes da moda internacional. Durante a Semana de Moda de Milão, a Havaianas apareceu na passarela da MM6 Maison Margiela para a temporada Primavera/Verão 2027, em uma colaboração que transforma um dos maiores símbolos do cotidiano brasileiro em objeto de experimentação e desejo fashion.
Apresentados no desfile de 23 de setembro, os modelos foram desenvolvidos especialmente para a apresentação e brincam com um dos principais códigos da MM6: o número seis. Entre eles estão a Slim 6Toe, que modifica a tradicional estrutura da sandália ao reproduzir o formato do pé e acrescentar um sexto dedo à silhueta, e a Top 6Layers, formada pela sobreposição de seis solados em uma construção que transforma o chinelo em uma espécie de plataforma irregular. A proposta não é apenas inserir o logotipo de uma marca sobre a outra, mas desconstruir a própria anatomia da Havaianas a partir da linguagem experimental da MM6.
Quando o cotidiano vira moda
A colaboração chama atenção justamente por partir de algo extremamente familiar. A Havaianas nasceu como um produto associado à praticidade, ao clima tropical e à informalidade brasileira. Ao chegar a uma passarela como a de Milão, porém, a sandália passa a ocupar outro território: o de objeto de criação.
Esse movimento acompanha uma transformação maior na maneira como o chinelo é percebido pela indústria. Nos últimos meses, o modelo ganhou espaço em produções de celebridades, coleções de grandes marcas e colaborações internacionais. Dados recentes mostram que as buscas por Havaianas no TikTok cresceram 173% em 2026, enquanto a marca também registrou avanço nas vendas nos Estados Unidos e na Europa.
Mais do que uma tendência passageira, o fenômeno mostra como peças originalmente associadas ao cotidiano podem adquirir novos significados quando entram em diálogo com designers, marcas e diferentes códigos de moda. No caso da Havaianas, essa transformação ganha uma camada adicional: o produto carrega consigo uma identidade brasileira reconhecida internacionalmente.
O Brasil como referência e não apenas como inspiração
A presença da Havaianas em Milão também representa um momento importante para a moda brasileira. Durante muito tempo, referências nacionais chegaram ao exterior principalmente por meio de elementos facilmente reconhecíveis, como estampas tropicais, praia, cores e artesanato. Agora, marcas brasileiras começam a aparecer de maneira mais direta dentro da construção da moda internacional.
A Havaianas vem ampliando esse caminho por meio de diferentes colaborações e apresentações. Em 2026, a marca também esteve na Semana de Moda de Paris com a brasileira P. Andrade, que desenvolveu uma nova construção para o modelo Top Cut, e apareceu na Copenhagen Fashion Week em uma parceria com a Studio Constance que resultou em uma Havaianas de salto.
Em Milão, entretanto, a colaboração com a MM6 ganha outra dimensão. A marca brasileira não aparece apenas como fornecedora de um acessório, mas como parte da narrativa criativa de uma coleção apresentada em um dos principais calendários de moda do mundo.
A força de um produto brasileiro
Existe ainda uma particularidade na trajetória da Havaianas: sua força está justamente na simplicidade. A sandália de borracha se tornou um dos produtos brasileiros mais reconhecidos internacionalmente e, ao longo dos anos, construiu uma identidade visual suficientemente forte para ser identificada mesmo fora do contexto nacional.
Agora, essa familiaridade passa por um processo de ressignificação. A colaboração com a MM6 mantém elementos reconhecíveis da Havaianas, mas os leva ao extremo por meio de proporções, construção e estranhamento: recursos que fazem parte do DNA experimental da Maison Margiela.
A Slim 6Toe e a Top 6Layers funcionam, portanto, como um encontro entre dois universos. De um lado, a simplicidade e a memória afetiva de um produto brasileiro. Do outro, a desconstrução e a provocação características da moda contemporânea. O resultado mostra que um item cotidiano não precisa abandonar sua origem para ocupar um espaço de luxo e criação.
Da identidade nacional ao desejo global
A chegada da Havaianas à passarela de Milão acontece em um momento especialmente interessante para o Brasil no cenário fashion. Segundo dados do Lyst Insights, o interesse por marcas brasileiras cresceu 204% entre o primeiro e o segundo trimestre de 2026, enquanto o interesse por produtos e referências ligados ao Brasil avançou 91% no mesmo período.
O movimento inclui diferentes nomes da moda nacional e mostra que o interesse internacional pelo Brasil não se limita mais à estética tropical. Existe espaço para produtos, designers e marcas que carregam uma identidade própria e conseguem dialogar com o mercado global sem perder suas particularidades.
Nesse contexto, a Havaianas ocupa uma posição simbólica. Poucos produtos traduzem tão imediatamente uma parte da cultura brasileira quanto o tradicional chinelo. Ver essa peça reinterpretada em Milão significa também perceber como aquilo que faz parte do cotidiano pode ser transformado em linguagem de moda.
Um novo capítulo para o chinelo brasileiro
A colaboração com a MM6 Maison Margiela ainda não chegou às lojas: a coleção completa está prevista para maio de 2027, enquanto os modelos apresentados em Milão foram desenvolvidos especialmente para o desfile.
Independentemente da chegada às vitrines, porém, a aparição já produz um efeito importante: coloca um dos símbolos mais populares do Brasil no centro de uma conversa internacional sobre design, inovação e desejo.
Em uma temporada marcada pela aproximação entre moda e cotidiano, a Havaianas mostra que o luxo também pode nascer de objetos familiares. E, ao levar o chinelo brasileiro para uma passarela de Milão, a marca reforça uma ideia cada vez mais presente na moda contemporânea: o que torna uma peça especial não é necessariamente sua origem sofisticada, mas a capacidade de carregar identidade, história e significado para novos públicos.