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Do troca-troca criativo à busca por identidade: como as maisons estão redesenhando a moda para 2027

27 de outubro de 2026

#Desfiles

By: Redação

A indústria da moda atravessa um dos períodos mais intensos de renovação criativa das últimas décadas. Entre saídas inesperadas, estreias aguardadas e mudanças de estratégia, algumas das principais maisons do mundo passaram a questionar a própria identidade e a maneira como se conectam com o público. O movimento ganhou força em 2025, quando uma série de grifes anunciou novos diretores criativos, e se tornou um dos principais assuntos do calendário internacional de 2026.

O fenômeno, chamado de “great reset”, não se resume à troca de nomes no comando das coleções. Ele reflete uma transformação mais profunda em um mercado que precisa recuperar o desejo dos consumidores, diferenciar seus produtos e encontrar um equilíbrio entre tradição e inovação.

Agora, com as primeiras coleções dessas lideranças já apresentadas e as propostas para a primavera-verão 2027 nas passarelas, a discussão começa a mudar. A questão já não é apenas quem ocupará cada cadeira, mas como esses profissionais conseguirão construir uma visão consistente para marcas que carregam décadas de história.

Por que 2026 foi um ano decisivo para as grandes maisons?

A concentração de mudanças começou a ganhar forma em 2025, mas foi ao longo de 2026 que o mercado passou a avaliar o impacto das novas lideranças. A temporada de primavera-verão 2026 marcou a estreia de nomes importantes em casas tradicionais, como Matthieu Blazy na Chanel, Jonathan Anderson na Dior, Demna na Gucci, Pierpaolo Piccioli na Balenciaga e Jack McCollough e Lazaro Hernandez na Loewe. Na Fendi, Maria Grazia Chiuri também assumiu a direção criativa, enquanto outras grifes seguiram reorganizando suas estruturas.

A movimentação tem relação direta com o momento econômico do luxo, que depois de anos de expansão, diversas marcas enfrentaram desaceleração nas vendas e maior resistência dos consumidores a preços elevados. Ao mesmo tempo, a ampliação das linhas de produtos e a exposição constante nas redes sociais tornaram mais difícil preservar a exclusividade e o desejo em torno das grifes.

Nesse contexto, a direção criativa passou a ser vista como uma ferramenta estratégica para recuperar relevância.

Chanel, Dior e Gucci: diferentes caminhos para renovar o legado

Na Chanel, Matthieu Blazy encontrou uma das tarefas mais delicadas do setor: renovar uma marca com códigos visuais extremamente reconhecíveis sem descaracterizar sua história. Tweed, bolsas icônicas, referências à fundadora Gabrielle Chanel e a combinação entre elegância e funcionalidade continuam importantes, mas ganham novas proporções e interpretações sob sua direção.

Na Dior, Jonathan Anderson tem explorado uma abordagem mais experimental do legado da maison. Conhecido por seu trabalho na Loewe, o estilista combina referências históricas, volumes esculturais e elementos inesperados, aproximando a tradição da alta-costura de uma linguagem contemporânea. Sua atuação nas linhas feminina, masculina e de alta-costura também representa uma mudança importante na estrutura criativa da casa.

Já a Gucci, sob o comando de Demna, procura conciliar sua herança italiana com uma linguagem provocativa, urbana e conectada à cultura contemporânea. Depois de uma fase inicial de experimentação, a coleção primavera-verão 2027 indicou uma aproximação mais definida entre o olhar do estilista e os códigos da grife, com referências à elegância burguesa e à estética associada à era Tom Ford.

Embora partam de universos diferentes, as três casas ilustram uma mudança de perspectiva: o objetivo não é apagar a assinatura do designer anterior, mas encontrar um equilíbrio entre a identidade histórica da marca e a visão de quem assume a direção para um novo público.

As microtendências também mudam o jogo

A discussão sobre as direções criativas acontece em paralelo a outra transformação: a fadiga de tendências. Nos últimos anos, as redes sociais aceleraram a circulação de estéticas e estilos, que surgem, viralizam e perdem espaço em intervalos cada vez menores. A sucessão de referências cria oportunidades para descobrir novas marcas e combinações, mas também pode transformar o ato de se vestir em uma busca permanente pela próxima novidade.

Para as grandes maisons, esse cenário exige uma resposta mais profunda do que simplesmente lançar uma nova tendência a cada temporada. A marca precisa oferecer produtos com personalidade, qualidade e capacidade de permanecer relevantes além do ciclo das redes sociais.

Com isso, os estilistas tem revisitado o legado das maisons e ressignificam cada peça em um novo contexto, trazendo ainda mais significado e propósito para cada uma delas.

O que esperar da moda em 2027?

As coleções de primavera-verão 2027, apresentadas nas semanas de moda internacionais, já oferecem algumas pistas. Uma das mais importantes é a busca por roupas que conciliem identidade visual e uso cotidiano. Em vez de apostar exclusivamente em produções conceituais, muitos estilistas exploraram peças adaptáveis, combinações pessoais e elementos que podem transitar entre diferentes ocasiões.

Em 2027, a expectativa é que as grandes marcas aprofundem as linguagens apresentadas nas temporadas anteriores. Depois de um período marcado por estreias e experimentações, o mercado deve observar quais diretores conseguirão transformar suas primeiras ideias em assinaturas reconhecíveis e atrativas para um público que busca consumir o luxo como experiência e não como tendência.

Menos pressa, mais consistência

A grande transformação em curso na moda não está apenas na troca de estilistas, mas na redefinição do que significa manter uma marca desejável. Durante anos, a velocidade das tendências e a exposição digital favoreceram ciclos de novidade cada vez mais curtos. Agora, as maisons precisam demonstrar que conseguem renovar sua imagem sem perder a própria identidade.

Em 2027, a criatividade continuará sendo um diferencial competitivo, mas a expectativa é que ela venha acompanhada de maior consistência. Isso significa dar tempo para que as novas direções amadureçam, desenvolver produtos que traduzam as ideias apresentadas nas passarelas e construir narrativas que ultrapassem o impacto de uma única coleção.

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