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Gabriela Hearst leva o artesanato afegão à Paris Fashion Week

5 de outubro de 2026

#Desfiles

By: Redação

A moda pode ser uma forma de preservar histórias — e foi a partir dessa ideia que Gabriela Hearst apresentou sua coleção primavera-verão 2027 na Paris Fashion Week. Nesta segunda-feira, 5 de outubro, a estilista uruguaia levou ao Petit Palais uma coleção inspirada no Afeganistão, construída em parceria com artesãs do país e marcada por tecidos tradicionais, bordados, espelhos e referências à cultura afegã. Mais do que uma inspiração estética, o desfile colocou no centro da passarela o trabalho de mulheres responsáveis pela preservação de técnicas artesanais transmitidas ao longo de gerações.

A coleção nasceu de uma pesquisa sobre a história e as tradições criativas do Afeganistão. Para desenvolver os trabalhos, a marca colaborou com a organização sem fins lucrativos Turquoise Mountain, que conectou a equipe de Hearst a artesãs afegãs. A estilista chamou essas mulheres de suas “22 milhões de musas”, em referência à população feminina do país, transformando o processo de criação em uma homenagem à força e à criatividade dessas profissionais.

Artesanato que ganha novos contornos

Entre os destaques da coleção estão jaquetas construídas a partir de patchworks de ikat, técnica tradicional de tingimento e tecelagem, além de vestidos ornamentados com pequenos espelhos, conhecidos como shisha. Os detalhes artesanais aparecem também em joias, botões e peças de alfaiataria, enquanto pinturas feitas por artesãs afegãs foram incorporadas a alguns acessórios e blazers de linho.

A proposta de Hearst não foi reproduzir literalmente o vestuário tradicional, mas transportar seus códigos para uma linguagem contemporânea. Assim, elementos artesanais dividem espaço com blazers, calças cargo, jaquetas de couro e trench coats, criando uma coleção na qual tradição e modernidade não aparecem como opostos.

Essa escolha reforça uma das discussões mais interessantes da moda atual: o artesanato deixa de ser visto apenas como referência folclórica e passa a ocupar um lugar de sofisticação, inovação e autoria. Nas mãos de Hearst e das artesãs envolvidas no projeto, técnicas ancestrais tornam-se parte de uma coleção internacional sem perder a conexão com sua origem.

A simbologia da romã

A coleção também encontrou espaço para referências mais delicadas à cultura afegã. No encerramento do desfile, vestidos brancos receberam bordados de romãs, fruta nacional do Afeganistão. O detalhe aparece de maneira sutil, mas funciona como uma espécie de assinatura da coleção, levando para a passarela um símbolo cultural sem transformar a referência em uma reprodução literal.

O branco, por sua vez, surge em vestidos de saias amplas e corpos mais ajustados, além de peças trabalhadas com espelhos e bordados. Em contraste, tons de azul, amarelo-claro, marrom e outras cores naturais aparecem em propostas mais utilitárias.

Do couro aos tecidos naturais

Apesar da inspiração afegã ser o eixo narrativo da coleção, Gabriela Hearst também preservou códigos já associados à identidade de sua marca. O couro aparece em conjuntos de jaqueta e calça, enquanto gabardinas leves são combinadas a calças cargo e outras peças de inspiração utilitária.

A sustentabilidade também atravessa a construção das roupas. Em uma das soluções mais interessantes da coleção, trench coats de seda receberam uma resina natural à base de água, criando um efeito semelhante ao nylon impermeável. A alternativa faz parte da crítica de Hearst ao uso de tecidos derivados de petróleo, como nylon e poliéster.

A escolha é coerente com a trajetória da marca. Desde sua criação, em 2015, Gabriela Hearst trabalha com a ideia de “luxo honesto”, baseada em peças duráveis, uso de materiais de estoque e redução do uso de plástico. A própria Federação da Alta-Costura e da Moda francesa destaca as práticas de sustentabilidade como parte importante da identidade da grife.

Moda como preservação cultural

O desfile apresentado no Petit Palais ganhou ainda uma dimensão simbólica pelo próprio espaço escolhido. As modelos circularam pelo pátio interno do museu, entre mosaicos coloridos, criando um cenário no qual arquitetura, artesanato e moda se encontraram. O local, construído originalmente para a Exposição Universal de Paris de 1900, ajudou a transformar a apresentação em uma experiência que ultrapassou a roupa.

Essa relação entre moda e patrimônio cultural está cada vez mais presente nas grandes semanas de moda. Ao incorporar técnicas artesanais a uma coleção internacional, designers também podem contribuir para dar visibilidade a saberes que correm o risco de desaparecer. No caso de Hearst, o processo foi realizado diretamente com as artesãs, colocando o trabalho manual no centro da narrativa.

Mais do que uma coleção inspirada em um país, Gabriela Hearst apresentou uma coleção construída a partir de encontros: entre tradição e contemporaneidade, entre artesanato e luxo, entre sustentabilidade e inovação. O resultado mostra que, na moda, uma técnica ancestral pode continuar viva justamente quando encontra novos contextos para existir.

Entre memória e futuro

Em uma temporada de Paris marcada pela discussão sobre o futuro do luxo, Hearst escolheu olhar para trás para construir algo novo. O desfile SS27 mostra que inovação nem sempre significa criar uma tecnologia inédita ou abandonar aquilo que já existe. Em muitos casos, ela pode estar em preservar um conhecimento, valorizar quem o domina e encontrar uma nova maneira de apresentá-lo.

Ao levar o trabalho de artesãs afegãs para uma das principais semanas de moda do mundo, Gabriela Hearst transforma o savoir-faire em protagonista. E reafirma uma ideia que ganha cada vez mais força no mercado: o verdadeiro luxo pode estar justamente naquilo que leva tempo para ser feito, carrega uma história e não pode ser reproduzido em escala industrial.

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