Moda, sustentabilidade, propósito. Se faltava algum ingrediente nessa fórmula, a pimenta arrematou. Seu nome (ou melhor, sobrenome) trouxe o tempero que dá gosto a um movimento em busca de diversidade, igualdade e consciência. Ele bate cartão na SPFW, tem mais de 30 anos de carreira e flerta com segmentos de arte e cultura. Seu nome é João Pimenta. Com simpatia, no backstage da montagem da exposição “O Processo Criativo de João Pimenta nas Passarelas”, que fica até dia 29 de junho no Senac Campinas, ele contou sobre sua trajetória. Conheça!

 1) Como  você entrou no universo da moda?

Sou de Ribeirão Preto e comecei meus trabalhos na Casas Pernambucanas, e lá eu conheci os tecidos e me apaixonei por eles. O que mais me emociona na moda são os materiais. Comecei a montar vitrines na loja, manequins, e quando vi já estava fazendo roupas do meu jeito.

 2) Você começou com coleções femininas e migrou para o masculino, certo?

Comecei na Casa de Criadores com uma coleção feminina e logo depois abri uma loja de rua em São Paulo. Mas, percebia que os meninos entravam para procurar peças que servissem para eles. Aí tive um insight de que o mercado masculino tinha espaço para criação e desenvolvimento. Então, em 2009 migrei, mas com atenção para a questão da modelagem e escolhas de tecido. Na época, a questão de gênero ainda não era tão importante quanto é hoje, mas pra mim não tem a ver com sexualidade, e sim uma questão técnica. O homem tem formas, mas a indústria faz roupas chapadas, quadradas.

2) Depois voltou para o feminino?

Resolvi abrir de novo para o feminino, porque a minha cliente nunca deixou de existir. Eu imaginava que eu não precisaria mais trabalhar essa questão de gênero, mas aí chega a ministra dizendo as cores que as pessoas deveriam usar. Então, voltei a fazer coleções juntas, femininas e masculinas.

3) Foi o que você fez nessa última coleção?

Sim. É engraçado, porque se for existir mesmo essa moda sem gênero, ela virá do guarda-roupa do homem para o da mulher, nunca o contrário. Achei pertinente colocar os homens vestindo bordado e as mulheres de terno, para voltar a falar sobre essa questão de liberdade de se vestir.

 4) Em que momento a sustentabilidade se mistura com sua história e marca?

Desde o início. Eu venho de uma família humilde e nunca tive acesso as matérias primas, então, desde o meu primeiro trabalho reutilizo materiais. Eu olho para uma cortina e vejo um vestido, olho para um tapete e vejo uma calça. No começo, isso parecia algo negativo, porque você não tem como investir, só que na verdade pro criativo, quando você não tem acesso a matéria prima, você ganha um espaço incrível para transformar.

5) Como você vê a sustentabilidade no Brasil?

O brasileiro tem a visão de que se já foi usado, não tem mais valor. Vamos precisar de projetos que mostrem os benefícios para as pessoas. Além disso, os processos são caros, então ter uma roupa sustentável é um investimento alto. Temos dificuldade em fazer esses dois pesos se encaixarem.

6) Quanto se gasta para montar um look sustentável João Pimenta?

Eu venho de uma família humilde, já tive que ter um processo grande com autoestima para poder acreditar no meu trabalho. Então, implantar um valor muito alto nas minhas roupas vai contra o conceito da marca. Não supervalorizamos o design. Hoje, as nossas roupas têm preço de uma magazine. Uma camiseta vai de R$80 a R$ 160, uma calça custa no máximo, se for uma alfaiataria R$300. Temos preço competitivo, mas somos uma marca pequena e não industrializada, sem processos poluentes, porque não temos estamparias, não temos lavanderia e a gente faz um trabalho com as mesmas costureiras há mais de 15 anos.

 7) E é legal que tem um caráter de exclusividade.

Sim. Sem contar que os nossos clientes circulam por um mesmo lugar, então são pessoas normalmente do meio de artes e tem uma mentalidade um pouco mais aberta, que gostam de experimentar.

8) Já temos algum spoiler da próxima coleção?

Uma coleção tem puxado a outra, eu tento criar uma narrativa. Vamos continuar com a questão de gênero, de liberdade. Mas, vou focar nas mulheres. Tenho muita vontade de entender as necessidades das mulheres, das gays. Então, montamos um grupo de estudos com algumas mulheres para captar os desejos.

A jornalista Raíssa Zogbi entrevista João Pimenta

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