O último fim de semana da London Fashion Week, que apresentou as coleções primavera/verão 2027, foi marcado por uma combinação entre tradição, novos capítulos para grandes nomes da moda britânica e a liberdade criativa que sempre definiu a capital inglesa. Entre sábado e domingo, dias 19 e 20 de setembro, a programação reuniu nomes como Ahluwalia, Chopova Lowena, Simone Rocha, Erdem, Roksanda e, em dois dos momentos mais aguardados da temporada, o retorno da Mulberry com Christopher Kane e da McQueen à cidade. A semana, organizada pelo British Fashion Council, reuniu 47 desfiles, 23 apresentações, 10 ativações digitais e 53 eventos.
Sábado entre esporte, identidade e experimentação
O sábado começou com uma agenda que traduziu bem a diversidade da moda londrina. Entre os destaques esteve Ahluwalia, de Priya Ahluwalia, que aproximou referências culturais, alfaiataria e códigos esportivos em uma coleção que também contou com parceria com a Puma. A designer, filha de mãe indiana e pai nigeriano, voltou a trabalhar com elementos relacionados às suas diferentes heranças culturais, conectando-os a uma linguagem contemporânea e urbana. A colaboração com a marca esportiva apareceu em peças como conjuntos esportivos de construção mais sofisticada e jaquetas de couro inspiradas no universo motociclístico.
A programação também passou por nomes como Patrick McDowell, John Richmond, Richard Quinn e Chopova Lowena, reforçando uma característica histórica da semana de moda britânica: a convivência entre propostas comerciais, referências históricas e experimentações que dificilmente caberiam em uma única estética. O resultado foi um dia menos interessado em estabelecer uma tendência única e mais voltado para mostrar a amplitude da identidade fashion de Londres.
Simone Rocha transforma referências históricas em desejo contemporâneo
No domingo, Simone Rocha abriu a programação com uma coleção inspirada em uma história envolvendo a descoberta de uma obra desconhecida atribuída a Caravaggio. A referência ao artista italiano serviu como ponto de partida para uma coleção que aproximou pintura, teatralidade e construção de silhueta, em uma das apresentações mais comentadas do encerramento.
A designer trabalhou com vestidos ornamentados, estruturas de inspiração histórica, rosas de seda aplicadas às peças e volumes que pareciam transportar elementos de um guarda-roupa de época para o presente. A coleção também explorou o contraste entre delicadeza e força, uma combinação recorrente no trabalho de Rocha.
Erdem mergulha no teatro e na androginia
Logo depois, Erdem Moralioglu apresentou uma coleção inspirada em Barbette, artista de circo e trapezista da década de 1920 cuja performance envolvia a transformação de sua identidade diante do público. A referência permitiu ao designer trabalhar com a fronteira entre masculino e feminino, fantasia e realidade.
A passarela reuniu vestidos ajustados ao corpo cobertos por cristais, casacos de inspiração circense, corseteria e silhuetas que misturavam referências de figurino histórico a elementos mais urbanos. O resultado reforçou a maneira como Erdem costuma transformar personagens e episódios do passado em narrativas de moda que dialogam com o presente.
Christopher Kane e o retorno da Mulberry
Um dos momentos mais aguardados do fim de semana aconteceu com a Mulberry, que voltou ao calendário oficial da London Fashion Week após seis anos. A apresentação marcou a estreia de Christopher Kane como diretor criativo da casa e também representou o retorno do próprio estilista às passarelas depois do encerramento de sua marca homônima em 2023.
Batizada de Town, City, Country, a coleção aproximou a irreverência característica de Kane da tradição britânica da Mulberry. O couro assumiu protagonismo em vestidos, casacos e acessórios, enquanto elementos da icônica bolsa Bayswater foram reinterpretados em recortes, barras e decotes. Em vez de recorrer ao logotipo de maneira literal, Kane transformou os próprios códigos do produto em elementos de construção das roupas.
A coleção também trouxe referências à Escócia, terra natal do designer, com uma paleta inspirada em paisagens industriais, cinzas, tons de laranja e padrões xadrez. O encontro entre a estética mais provocadora de Kane e o patrimônio artesanal da Mulberry tornou o desfile um dos símbolos da temporada: uma tentativa de olhar para a tradição britânica sem transformar o passado em peça de museu.
McQueen volta para casa
Se a Mulberry representou um novo capítulo, a McQueen protagonizou um verdadeiro retorno às origens. A maison voltou a desfilar em Londres depois de temporadas apresentando suas coleções em Paris. O desfile de primavera/verão 2027 marcou ainda a estreia de Seán McGirr na capital britânica à frente da marca, reunindo moda masculina e feminina em uma mesma apresentação.
Realizado em uma capela do século XVII, o desfile recuperou uma atmosfera sombria e teatral associada ao imaginário de Alexander McQueen. Estruturas de metal, harnesses, vestidos de chainmail, caveiras prateadas, alfaiataria dramática e vestidos de renda com volumes de organza apareceram em uma coleção que aproximou o romantismo gótico de uma construção mais delicada e etérea.
O retorno teve também um forte componente simbólico. A McQueen é uma das casas britânicas que haviam deixado Londres para integrar o calendário de Paris, e sua volta foi anunciada pelo British Fashion Council como um dos grandes acontecimentos da temporada. A escolha de retornar à cidade reforça a relação entre a marca e o ambiente cultural que ajudou a formar seu fundador.
Londres recupera seus grandes nomes
Mais do que uma sucessão de desfiles, o último fim de semana da London Fashion Week evidenciou um movimento de valorização da própria identidade britânica. O retorno da McQueen, a estreia de Christopher Kane na Mulberry e a presença de nomes como Simone Rocha e Erdem ajudaram a criar uma temporada em que patrimônio e inovação caminharam lado a lado.
Ao mesmo tempo, a semana não abandonou sua vocação para revelar novos talentos. A programação oficial combinou grandes maisons, marcas independentes e designers apoiados pelo NEWGEN, reforçando a estratégia do British Fashion Council de apresentar Londres como um espaço onde diferentes estágios da indústria podem coexistir.
No fim, a London Fashion Week SS27 deixou uma mensagem bastante clara sobre seu momento atual: a força da capital não está apenas nas grandes marcas, mas na capacidade de colocar diferentes gerações e linguagens em diálogo. Entre o couro de Christopher Kane, o romantismo de Simone Rocha, o teatro de Erdem e o imaginário sombrio da McQueen, Londres mostrou que sua identidade fashion continua sendo construída justamente pelo encontro entre herança, irreverência e experimentação.