A London Fashion Week SS27 começou nesta quinta-feira (17) reafirmando uma de suas principais características: a capacidade de reunir, em uma mesma programação, propostas completamente diferentes de moda. No primeiro dia da temporada, Mark Fast levou à passarela suas famosas silhuetas ajustadas e trabalhos artesanais em tricô, Harris Reed revisitou os códigos dramáticos de sua própria assinatura e a H&M transformou o desfile em uma experiência que aproximou moda, imagem, música e tecnologia.
Mais do que apresentar as tendências da primavera/verão 2027, os três desfiles mostraram diferentes caminhos para pensar a moda contemporânea. De um lado, a valorização do corpo e do trabalho manual; de outro, a reconstrução de uma identidade autoral; e, por fim, a tecnologia entrando diretamente na narrativa da passarela.
Mark Fast: o corpo como ponto de partida
Responsável por abrir a sequência de grandes desfiles do dia, Mark Fast voltou à programação oficial da London Fashion Week depois de ficar de fora da última edição. Para a primavera/verão 2027, o estilista retomou uma de suas características mais reconhecíveis: as silhuetas que acompanham de perto as formas do corpo.
A coleção partiu de fotografias da modelo alemã Veruschka feitas por Franco Rubartelli, referência que apareceu tanto na paleta de tons empoeirados e terrosos quanto na atmosfera da coleção. Os fios foram trabalhados em estruturas vazadas, redes e tramas que se espalhavam pelo colo e pelo torso, criando peças que revelavam a pele e funcionavam quase como uma segunda camada sobre o corpo.
O tricô, principal linguagem de Fast, apareceu em minivestidos, minissaias, shorts e macacões de construções bastante abertas. Em algumas peças, as tramas eram tão largas que deixavam grandes áreas do corpo à mostra; em outras, painéis estrategicamente posicionados criavam uma sensação de proteção. A coleção também apresentou uma nova técnica de aplicação de miçangas, inseridas nas próprias fileiras do tricô para acrescentar peso e textura às peças.
Apesar do caráter artesanal, o desfile não abandonou a intenção comercial. O estilista combinou seus vestidos ajustados com jersey e bermudas jeans de cintura baixa, criando uma ponte entre o trabalho elaborado do tricô e peças mais fáceis de incorporar ao guarda-roupa cotidiano. O resultado reforçou a relação de longa data de Mark Fast com uma moda que coloca o corpo no centro da construção da roupa.
Harris Reed: uma nova leitura de sua própria assinatura
Na sequência, Harris Reed apresentou uma coleção especialmente simbólica para sua trajetória. O desfile marcou seu primeiro trabalho para a marca homônima desde sua saída da direção criativa da Nina Ricci, em março deste ano. O próprio designer descreveu a coleção como uma reavaliação dos sete anos de sua maison e de suas cinco temporadas na London Fashion Week.
O exercício de olhar para trás não significou abandonar sua identidade. Pelo contrário: Reed revisitou elementos que já fazem parte de seu vocabulário, mas os apresentou de maneira mais contida. A coleção foi dominada pelo branco, enquanto os tradicionais saltos altíssimos e plataformas deram lugar a uma proposta mais próxima do chão.
As referências vitorianas continuaram presentes em corsets, volumes arredondados e construções marcadas nos quadris. A diferença estava na forma como esses elementos foram trabalhados: em vez de depender apenas da teatralidade da silhueta, Reed colocou os materiais e o acabamento no centro da narrativa. Estampas de animais e flores pintadas à mão apareceram sobre organza, enquanto cetim duchesse e brocados de seda foram recortados e unidos em peças de construção extremamente delicada.
A coleção também evidencia um momento de amadurecimento da marca. O que antes poderia aparecer como excesso passou a funcionar como parte de um vocabulário mais amplo, no qual corseteria, volumes e estruturas continuam reconhecíveis, mas dividem espaço com texturas, bordados e trabalhos manuais.
H&M transforma a passarela em experiência
Encerrando o primeiro dia, a H&M levou a London Fashion Week para outro território com o projeto H&M&YOU&I, criado em parceria com o fotógrafo britânico Nick Knight e o SHOWstudio. A proposta partiu justamente da ideia de repensar o que pode ser um desfile no momento em que as fronteiras entre o físico e o digital estão cada vez mais próximas.
Realizado em uma passarela de 40 metros na Kensington Olympia, o espetáculo foi dividido em três capítulos e combinou as linhas H&M Studio e Atelier com a coleção principal. A trilha sonora ficou por conta do músico Labrinth, enquanto Knight levou sua experiência como fotógrafo e pioneiro da imagem de moda digital para uma apresentação ao vivo.
Um dos principais elementos da experiência foi justamente a utilização de inteligência artificial. Fotografias e ilustrações produzidas em estúdio foram transformadas em filmes de moda em tempo real, enquanto os movimentos de modelos e convidados interferiam nas imagens projetadas. A tecnologia, portanto, não apareceu apenas como efeito visual, mas como parte da própria construção da apresentação.
A coleção também apresentou diferentes referências estéticas. A abertura trouxe blusas com babados inspiradas nos períodos vitoriano e eduardiano, jaquetas de inspiração napoleônica e minissaias com corset. Depois, o desfile caminhou para uma alfaiataria mais urbana e, posteriormente, para uma estética de guarda-roupa de colecionador, com referências acumuladas de diferentes décadas e lugares.
Na linha Studio, o contraste foi ainda mais evidente. A coleção colocou lado a lado lã pesada e renda delicada, alfaiataria precisa e acabamentos propositalmente inacabados. Saias de cetim, vestidos de inspiração lingerie e peças de tricô ajustadas ao corpo equilibraram a rigidez de casacos estruturados e da alfaiataria.
Londres começa olhando para o futuro
O primeiro dia da London Fashion Week SS27 deixou claro que a temporada londrina não pretende escolher entre tradição e inovação. As três apresentações seguiram caminhos distintos, mas todas partiram de uma mesma característica que há décadas define a moda da cidade: a liberdade para experimentar.
Assim, Londres inicia a temporada SS27 sem uma única estética dominante, mas com algo talvez ainda mais característico: a disposição para testar novas linguagens. Entre fios que revelam a pele, referências vitorianas revisitadas e imagens criadas por inteligência artificial, a capital britânica começa sua semana de moda reafirmando que, por ali, tradição e futuro podem dividir a mesma passarela.