A Louis Vuitton encerrou a Paris Fashion Week SS27 nesta terça-feira, 6 de outubro, com uma coleção que propõe uma nova maneira de pensar o futuro. Sob a direção criativa de Nicolas Ghesquière, a maison deixou de lado parte das estruturas rígidas e das silhuetas geométricas que marcaram suas últimas temporadas para colocar o corpo em movimento no centro da criação. O resultado é um guarda-roupa de aparência leve, fluida e descomplicada, mas construído a partir de uma complexa pesquisa de materiais e engenharia têxtil.
A mudança chama atenção justamente porque acontece em um cenário que parece apontar para o extremo oposto. Na Cour Carrée do Louvre, o desfile foi ambientado como uma espécie de estrada futurista, com carros “voadores” suspensos sobre a passarela e veículos Louis Vuitton posicionados como parte do cenário. A estética de ficção científica, porém, serviu de contraponto para roupas extremamente conectadas à realidade.
O futuro começa pelo corpo
O conceito da coleção é a ergonomia. Para Ghesquière, a ideia parte da relação entre corpo, objeto e movimento, em uma tentativa de criar roupas que acompanhem quem as veste em vez de impor uma estrutura sobre o corpo.
A proposta aparece em peças que parecem se adaptar à anatomia: vestidos próximos à pele, cardigãs ajustados, jaquetas fluidas, calças amplas e tecidos que se movimentam junto às modelos. A própria Louis Vuitton descreveu as roupas como uma espécie de “segunda pele”, desenvolvida para acompanhar as transformações do corpo durante o movimento.
A escolha também representa uma mudança importante na linguagem de Ghesquière. Conhecido por construções esculturais e proporções mais experimentais, o estilista agora investe em uma estética menos rígida. O corpo deixa de ser uma estrutura sobre a qual a roupa é construída e passa a ser o ponto de partida para determinar sua forma.
A ultraleveza como nova sofisticação
Se existe uma palavra capaz de resumir a coleção, é leveza. Tecidos ultrafinos, chiffon, seda, cashmere e materiais desenvolvidos especificamente para reduzir peso aparecem em vestidos, saias, jaquetas e peças de alfaiataria.
A simplicidade visual, no entanto, esconde um processo bastante complexo. Ghesquière explicou que produzir roupas extremamente leves exige uma engenharia sofisticada, especialmente para desenvolver tecidos capazes de manter estrutura e desempenho sem acrescentar peso.
É justamente essa contradição que torna a coleção interessante: quanto mais simples a roupa parece, mais elaborado pode ser o trabalho necessário para fazê-la existir.
Vestidos que acompanham o movimento
Os vestidos foram alguns dos grandes protagonistas do desfile. Silhuetas próximas ao corpo aparecem em materiais transparentes ou translúcidos, enquanto outras propostas exploram camadas leves de seda e chiffon.
A cartela de cores acompanha a ideia de leveza, com branco, rosa-claro, azul e tons suaves dominando parte da coleção. Algumas peças recebem estampas geométricas, padrões iridescentes e elementos gráficos que quebram a delicadeza das superfícies.
Em vez de criar volume pelo excesso de tecido, Ghesquière trabalha o movimento pela própria construção das peças. Mangas alongadas transformam-se em pequenas caudas, saias ganham fendas laterais e calças amplas criam movimento a cada passo.
Alfaiataria sem rigidez
A alfaiataria também aparece repensada para acompanhar essa nova proposta. Jaquetas são mais soltas, algumas apresentam mangas fluidas e outras se alongam em estruturas que acompanham o movimento do corpo.
A construção tradicional é preservada, mas parte da estrutura interna é retirada. O objetivo é manter a aparência sofisticada da alfaiataria sem o peso e a rigidez normalmente associados a ela.
O resultado aproxima o tailoring de uma ideia mais contemporânea de conforto: a roupa continua apresentando forma, mas não limita os movimentos.
Moda em tempos de calor
A coleção também conversa diretamente com uma questão que já começa a transformar o comportamento e o mercado de moda: o aumento das temperaturas.
Depois das ondas de calor que atingiram diversas regiões da Europa, Ghesquière passou a pensar em como as roupas podem responder a um planeta mais quente. A resposta veio por meio de tecidos respiráveis, transparências, modelagens abertas e uma redução significativa de camadas e volumes.
Mais do que uma questão estética, essa mudança representa uma reflexão sobre funcionalidade. Se o clima está mudando, o guarda-roupa também precisa mudar.
A roupa do futuro, nesse caso, não é necessariamente aquela que parece ter vindo de outro planeta. Pode ser justamente aquela que funciona melhor para a realidade que estamos vivendo.
O contraste entre passado e futuro
O cenário futurista também estabelece uma relação interessante com a própria história da Louis Vuitton. A inspiração para a ambientação veio de uma curiosidade sobre o Louvre: antes de sua transformação em um dos grandes símbolos culturais de Paris, a Cour Carrée chegou a funcionar como estacionamento para funcionários do Ministério das Finanças.
Ghesquière transformou essa memória em uma espécie de estrada imaginária, com marcações no chão e carros suspensos.
O resultado cria uma tensão entre passado, presente e futuro. De um lado, o Louvre representa séculos de história. Do outro, carros voadores e uma estética de ficção científica apontam para o que ainda está por vir. No meio dos dois, estão as roupas, pensadas para o corpo real de hoje.
O luxo deixa o logotipo em segundo plano
Outro detalhe importante foi a presença discreta do monograma da Louis Vuitton. Em uma coleção tão ligada à identidade da maison, o famoso símbolo aparece de maneira pontual, principalmente em algumas bolsas e em uma jaqueta de couro.
A escolha acompanha um movimento mais amplo do mercado de luxo, que vem repensando a relação entre desejo e logotipo. Em vez de depender exclusivamente do reconhecimento visual da marca, a coleção aposta na construção, nos materiais e na funcionalidade como elementos de valor.
As bolsas, por sua vez, mantêm uma presença importante. Modelos pequenos e estruturados aparecem em tons claros, enquanto o couro Epi, um dos materiais tradicionais da Louis Vuitton, ganha interpretações igualmente leves.
Uma nova Louis Vuitton para uma nova realidade
O encerramento da Paris Fashion Week deixa uma mensagem clara sobre o caminho escolhido por Ghesquière para a próxima temporada. Depois de explorar mundos imaginários, construções futuristas e silhuetas mais complexas, o designer volta sua atenção para algo muito mais básico: como o corpo quer se sentir dentro da roupa.
É uma mudança que não significa abandonar a inovação. Pelo contrário. Na Louis Vuitton SS27, a tecnologia aparece justamente onde não é imediatamente percebida, nos tecidos, na engenharia e na construção de peças que parecem simples.
E talvez esteja aí a principal ideia do desfile: o futuro da moda não precisa ser mais pesado, mais complexo ou mais tecnológico na aparência. Ele pode ser leve, confortável e funcional. Pode acompanhar o corpo em vez de controlá-lo.
Ao encerrar a Paris Fashion Week com carros voadores sobre o Louvre e roupas que parecem desafiar a gravidade, Nicolas Ghesquière encontrou uma maneira bastante atual de falar sobre o futuro: olhando para o movimento, para o clima e, principalmente, para o corpo humano.