A Milão Fashion Week SS27 começou nesta terça-feira, 22 de setembro, com a moda italiana voltando os holofotes para a cidade em uma temporada marcada por transformações importantes no calendário internacional. Entre os 203 compromissos previstos até 28 de setembro, a programação reúne 61 desfiles, 88 apresentações e 54 eventos, com nomes tradicionais e novas propostas dividindo espaço em uma semana que terá Prada, Fendi, Marni, Gucci, Moschino, Bottega Veneta, Ferragamo e Giorgio Armani entre seus principais momentos.
A abertura, no entanto, ficou por conta de Miuccia Prada e Raf Simons, que apresentaram a coleção da Prada na tarde desta terça-feira. E se existe uma peça capaz de resumir o primeiro capítulo da temporada, ela não foi o vestido nem a calça: foi a saia. Em uma coleção composta por 63 looks, a dupla colocou o item no centro da narrativa e explorou suas possibilidades de construção, proporção, material e styling.
A saia como protagonista
A proposta da Prada partiu de uma decisão radical: deixar calças e vestidos fora da coleção. Em seu lugar, a saia apareceu em praticamente todas as possibilidades imagináveis, desde modelos de linha A e versões plissadas até construções em couro, materiais sintéticos, transparências e aplicações. A ideia reforça uma característica recorrente no trabalho de Miuccia Prada: transformar uma peça aparentemente cotidiana em objeto de investigação estética e cultural.
Para a estilista, a saia funciona como uma espécie de tela para a expressão individual. Assim como uma camiseta com estampa pode carregar uma mensagem, a saia pode assumir diferentes personalidades dependendo da combinação. Na passarela, ela apareceu com tricôs, camisas, tops e elementos de lingerie, criando contrastes entre códigos tradicionalmente femininos e uma construção mais prática e urbana.
O resultado também recupera uma das ideias mais interessantes da moda contemporânea: a possibilidade de uma mesma peça transitar entre diferentes identidades. A saia pode ser romântica ou austera, delicada ou esportiva, minimalista ou extravagante. Na Prada, essa multiplicidade se transforma no próprio conceito da coleção.
Quando o sutiã vira bolsa
Entre as imagens mais curiosas do desfile, o sutiã deixou de funcionar apenas como peça íntima e ganhou novas funções no guarda-roupa. Em alguns looks, a peça apareceu como top; em outros, foi transformada em uma espécie de acessório usado junto ao corpo. A lógica de deslocar objetos de sua função original é uma das marcas da Prada, e nesta temporada ela aparece novamente ao questionar os limites entre roupa e acessório.
A ideia chega ainda mais longe quando os sutiãs passam a funcionar como bolsas. O acessório assume o formato da lingerie e passa a ser carregado ou incorporado à silhueta, criando uma imagem que mistura utilidade, estranhamento e sensualidade. É justamente nesse tipo de inversão que a Prada encontra uma de suas principais forças: pegar algo conhecido e fazê-lo parecer novo novamente.
Materiais que desafiam a aparência
Outro destaque da coleção foi a relação entre aparência e matéria. Saias que pareciam tradicionais ganharam construções inesperadas, enquanto materiais sintéticos assumiram visual de tecidos mais nobres. O efeito aparece em peças plissadas e superfícies que brincam com transparência, brilho e textura.
A proposta cria uma espécie de jogo visual: o que parece seda pode ser sintético, o que lembra renda pode ser construído com cristais e uma estrutura aparentemente clássica pode esconder uma construção completamente diferente. A Prada transforma, assim, a própria materialidade da roupa em parte da narrativa.
As saias também foram trabalhadas com velcro, cristais, botões-jóia e estruturas internas aparentes. Em alguns casos, a construção permitia que a peça fosse segurada pelas mãos e tivesse sua forma modificada pelo movimento do corpo. O resultado aproxima moda e objeto, transformando a roupa em algo que também depende da interação de quem a veste.
Entre o passado e o futuro
Apesar das experimentações, a coleção não abandonou referências clássicas. Muitas das saias apresentavam silhuetas que remetiam aos anos 1950, com cintura marcada e volumes controlados. A diferença estava na construção: tecidos, acabamentos e elementos tecnológicos deslocaram essas referências para um território mais contemporâneo.
Essa combinação entre familiar e inesperado é especialmente significativa para uma marca como a Prada. A casa trabalha constantemente com a tensão entre o sofisticado e o cotidiano, o clássico e o estranho, o feminino e o masculino. Para a primavera/verão 2027, essa equação aparece concentrada em uma única peça, que passa a carregar diferentes possibilidades de interpretação.
Um novo momento para Milão
A abertura da semana também acontece em um momento de mudanças para a indústria italiana. A temporada chega poucos dias depois do anúncio de que Donatella Versace está deixando para trás sua antiga posição na maison que leva seu sobrenome para iniciar um novo projeto independente em parceria com a Revolve. Enquanto isso, outras grandes casas atravessam processos de transformação criativa e empresarial.
Nesse cenário, a Prada inicia a temporada com uma proposta que não depende de uma mudança de direção criativa para provocar discussão. Miuccia Prada e Raf Simons utilizam a própria construção da roupa para questionar convenções e propor novas maneiras de olhar para peças conhecidas.
E o que vem pela frente?
Depois da abertura protagonizada pela Prada, a programação de Milão segue nesta quarta-feira com nomes como Luisa Beccaria, Jil Sander, Antonio Marras, Fendi, Missoni, MM6 Maison Margiela e Etro. Entre os momentos mais aguardados dos próximos dias estão a segunda coleção de Maria Grazia Chiuri para a Fendi, o desfile de Meryll Rogge para a Marni e a estreia de Loris Messina e Simone Rizzo à frente da Moschino.
O primeiro dia, porém, já deixou seu principal código visual: para a Prada, a primavera/verão 2027 será construída em torno da saia como objeto de expressão, enquanto o sutiã abandona sua função convencional para se transformar em parte da arquitetura do look e até em bolsa. Em Milão, a moda começa a temporada mostrando que, muitas vezes, inovar não significa inventar uma nova peça, mas mudar completamente a maneira como enxergamos uma que já conhecemos.