Por Carolina Altarejo

Em 1950, a filósofa brasileira Gilda de Mello e Sousa escreveu no ensaio “O Espírito das Roupas”, publicado em 1987, que a moda é “uma simbologia, o reflexo da sociedade”. Em meio a um cenário completamente novo, não poderíamos esperar uma postura diferente. Nesta crise de saúde sem precedentes, o mercado, pautado pela competição, se encontra mais unido do que nunca, cumprindo o seu papel de responsabilidade social por um único objetivo: combater a pandemia.

Com o comércio fechado, número de trabalhadores reduzido e matéria-prima limitada, o setor carrega um impacto significativo, porém, mostra sua empatia, pertinente ao segundo maior empregador do Brasil. As máquinas suspenderam a produção de roupas e cosméticos e passaram a ser utilizadas no esforço de oferecer materiais de proteção e higiene que auxiliam a prevenir a disseminação do novo coronavírus.

Iniciativas internacionais

Com o crescimento dos casos de COVID-19 no mundo todo, as grandes marcas de luxo se mobilizaram para prestar auxílio aos hospitais e centros de pesquisa. Versace, Prada, Giorgio Armani, Moncler e os grupos Kering e LVMH são alguns dos players que já doaram grandes quantias em dinheiro e aparelhos às entidades de saúde na Europa para o tratamento de pacientes infectados.

O poderoso grupo francês de luxo LVMH, fechou as fábricas de cosméticos e perfumes das grifes Dior, Givenchy e Guerlain para produzir álcool em gel, o que renderá cerca de 50 toneladas por semana, doadas aos hospitais franceses. A holding também está trabalhando no envio milhões de máscaras para as entidades na França, Itália e Espanha.

Dentre as ações, Chanel, Hugo Boss, Gucci, Saint Laurent, Balenciaga e o grupo Inditex são alguns dos que se dispuseram a produzir vestimentas médicas, como aventais e máscaras, para os profissionais de saúde.

A marca de joias romana Bvlgari também fez uma grande doação ao Departamento de Pesquisa do Hospital Lazzaro Spallanzani, em Roma. Essa, resultou na compra de um microscópio de última geração, fundamental para a pesquisa de desenvolvimento da vacina. “Estamos conscientes de que a doação é um pequeno pedaço da pesquisa que deve ser realizada, mas graças às pessoas maravilhosas que estão trabalhando dia e noite com grande otimismo, temos certeza de que nas próximas semanas avançaremos bastante na contenção e na erradicação do coronavírus, não apenas na Itália, como no resto do mundo”, disse o CEO da grife, Jean-Christophe Babin.

Higiene e prevenção

No Brasil, muitas marcas estão engajadas também na produção dos itens indicados pelo Ministério da Saúde para auxiliar no combate ao Covid-19. As indústrias do ramo têxtil, como o Grupo Lunelli, Grupo Morena Rosa, Grupo AMC Têxtil e Vicunha, aderiram à iniciativa, apoiadas pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT).

Lucas Franzato, CEO Grupo Morena Rosa, defende que neste momento único não existe um manual. “Todas nossas decisões foram focadas na nossa cultura, no nosso jeito”, conta o empresário. Ele afirmou que o Grupo foi o primeiro a tomar a decisão de parar a fábrica e o escritório e, para ajudar com o fornecimento de EPIs, identificaram facções familiares e redirecionaram a produção. “Fizemos no primeiro momento 7 mil máscaras, depois mais 6 mil e centenas de jalecos. O Governo tem uma demanda de 1,5 milhões de máscaras e jalecos, estamos auxiliando, como outras empresas, no corte destes materiais através de nossos maquinários”.

A adaptação na manufatura das fábricas também atingiu o setor de cosméticos. A AMEND Cosméticos, Mary Kay Inc., Lowell e Natura &Co foram algumas das que passaram a utilizar de seu espaço para produzir álcool em gel com o propósito de auxiliar as instituições e outros locais selecionados.

Além do antisséptico, a ADCOS identificou a necessidade de intensificar a hidratação do rosto e das mãos devido às lesões causadas à pele pelo uso recorrente de EPIs, e criou uma fórmula específica de hidratante, que será doado em hospitais para uso diário das equipes médicas.

Apoios aos profissionais da saúde

Pensando nos profissionais que têm trabalhado na linha de frente para o combate ao Covid-19, as iniciativas surgem como forma de agradecimento.

Para auxiliar no atendimento da demanda, a Osklen, em parceria com o Instituto Alpargatas, iniciou a produção de máscaras e jalecos, seguindo seu viés sustentável em confeccioná-los a partir das sobras de tecidos da sua coleção atual. A Cia. Hering também anunciou que está confeccionando uniformes para utilização em centros cirúrgicos. Já a Aramis, com o objetivo de engajar o restante da indústria nessa era de empatia, criou a campanha #VestindoHerois e doou seu estoque de roupas brancas às equipes hospitalares. “Sabemos que não é o momento de comprar roupas e sim de ajudar o próximo“, explicou Richard Stad, CEO da marca.

Novas formas de venda

Se reinventar. Esse é o desafio das marcas que procuram minimizar os impactos econômicos da pandemia. Descontos e isenção do frete foram algumas das alternativas encontradas pelas empresas que passaram a adotar o e-commerce como canal número um. No entanto, a experiência do consumidor, explorada organicamente no ponto de venda, é o fator que diferenciará as marcas no ambiente digital.

A fundadora da Simple Organic, marca brasileira de clean beauty, Patricia Lima defende que em épocas de crise, surge a criatividade. “Esse será um marco no varejo, que terá que se transformar e se reinventar”, afirma a empreendedora. A marca decidiu apoiar os brasileiros nesse momento de instabilidade financeira e criou um time de vendas digital que oferece às pessoas uma possibilidade de renda extra através de comissão.

De fato, a necessidade de mudar a dinâmica de negócios promete ampliar a operação online do setor. Em entrevista para a Z Magazine, a vice-presidente de vendas da Mary Kay Brasil, Rosana Bonazzi, conta que a marca, campeã no modelo de vendas diretas, passou a oferecer ferramentas para que suas Consultoras de Beleza Independentes realizem Sessões de Beleza Virtuais. “As consultoras aprenderam que podem estar junto de suas clientes virtualmente, não só para vender, mas para acompanhá-las e apoiá-las, inclusive emocionalmente”, conta Rosana. Essa mudança da dinâmica ainda permitiu que elas abordassem a questão do autocuidado, essencial neste momento de combate ao Covid-19 e isolamento social.

Já o CEO do Grupo Morena Rosa concordou que este não é momento de forçar a barra, mas de aproximação com o cliente. Segundo ele, “todos os processos e planos para que continuem atendendo continuam, seja online ou delivery, mas é importante olharmos com carinho para as pessoas e situações. Com empatia e respeito, conseguimos criar ações e planos de volta, de retomada, porque vamos voltar e é importante já planejarmos.”

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here