A apresentação da marca COS na New York Fashion Week, no último domingo (13), foi interrompida por integrantes da PETA, organização de defesa dos direitos dos animais. Os ativistas entraram na passarela durante o desfile de Primavera/Verão 2027 para protestar contra o uso de lã na moda e colocar em evidência uma questão que, até agora, vinha recebendo menos atenção do que as discussões sobre peles e couro.
A manifestação rapidamente ganhou repercussão e levou para um dos principais eventos do calendário internacional da moda o debate sobre o uso de fibras de origem animal.
Durante o desfile, ativistas da PETA entraram na passarela em diferentes momentos, e carregaram cartazes com mensagens contra a utilização de lã. Segundo a organização, o protesto está relacionado a denúncias de maus-tratos contra ovelhas em fazendas fornecedoras do setor. A ação também teve como alvo a H&M, grupo ao qual a COS pertence, e pressionou a companhia a abandonar materiais de origem animal.
Lã na mira do ativismo
A escolha da lã como alvo amplia uma discussão que ganhou força nos últimos anos na indústria da moda. Enquanto materiais como pele e couro já são frequentemente associados a debates sobre direitos dos animais, a lã ocupa uma posição diferente por ser uma fibra natural e renovável.
Ainda assim, sua produção envolve animais e, por isso, é questionada por organizações de proteção animal. A PETA afirma que investigações realizadas pela entidade identificaram casos de violência contra ovelhas durante processos de criação e tosquia.
A organização também questiona a capacidade das certificações existentes de assegurar condições adequadas em toda a cadeia produtiva.
Essas são alegações apresentadas pela própria PETA e que fundamentam a campanha da organização contra a lã.
Em resposta, a H&M afirmou que leva denúncias relacionadas ao bem-estar animal a sério e que trabalha com fibras de origem animal certificadas e materiais reciclados. A companhia também declarou que a lã virgem utilizada em seus produtos é proveniente de fazendas certificadas pelo Responsible Wool Standard (RWS).
Debate sobre o futuro da moda
O episódio da COS coloca em discussão uma questão que vai além da escolha de uma matéria-prima: quais materiais estarão presentes na moda nos próximos anos?
A PETA defende a substituição dos produtos de origem animal por alternativas livres desses componentes. Já o setor também precisa considerar os impactos ambientais e econômicos de uma eventual substituição em larga escala.
A lã é uma fibra natural e renovável, mas sua produção está relacionada a questões de bem-estar animal. As alternativas sintéticas, por outro lado, podem eliminar essa origem, mas muitas são produzidas a partir de recursos fósseis e também geram impactos ambientais.
Por isso, a discussão sobre materiais vem incorporando outros critérios além da origem da fibra. Rastreabilidade, processos produtivos, durabilidade, descarte e possibilidade de substituição passaram a fazer parte das decisões de marcas e consumidores.
Da pele à lã: a pressão sobre a indústria aumenta
O protesto aconteceu em um momento importante para a própria New York Fashion Week. Esta foi a primeira edição do evento após a entrada em vigor da proibição de peles nas passarelas estabelecida pelo CFDA, depois de anos de pressão de organizações e ativistas, incluindo a PETA.
Com a pele fora das passarelas, outros materiais de origem animal passam a receber maior atenção. A lã é agora um dos pontos dessa discussão.
Para a PETA, o objetivo é ampliar a pressão sobre a indústria para que materiais de origem animal sejam substituídos. Para empresas e outros representantes do setor, a questão envolve uma análise mais ampla, que inclui bem-estar animal, impacto ambiental, condições de trabalho, economia das comunidades produtoras e disponibilidade de alternativas.
Em 2026, a organização divulgou investigações anteriores envolvendo propriedades fornecedoras ou ligadas à cadeia de suprimentos da H&M. Em abril, por exemplo, a organização afirmou que uma investigação da PETA Asia em uma operação de lã certificada na África do Sul havia registrado trabalhadores chutando, arrastando e ferindo ovelhas. A entidade disse que a operação estava ligada à cadeia de fornecimento da H&M
O protesto na apresentação da COS mostra, ainda, como as grandes semanas de moda se tornaram espaços para discussões que ultrapassam tendências e coleções. Sustentabilidade, responsabilidade empresarial, diversidade e direitos dos animais também passaram a fazer parte do cenário das passarelas.
Na NYFW, desta vez, a discussão chegou acompanhada de cartazes, ativistas e uma pergunta que deve continuar circulando pela indústria: qual será o lugar dos materiais de origem animal na moda do futuro?