Depois de passar por Nova York, Londres e Milão, o circuito internacional de moda chegou à sua última parada: Paris. A Semana de Moda de Paris SS27 começou nesta segunda-feira, 28 de setembro, com uma programação que privilegiou novos talentos e linguagens autorais antes da entrada dos grandes nomes da temporada. Entre os primeiros desfiles, Julie Kegels, Maxhosa Africa, Hodakova e Matières Fécales apresentaram coleções que têm em comum a vontade de experimentar, seja na construção da roupa, na escolha dos materiais ou na própria maneira de pensar a indústria.
A edição parisiense segue até 6 de outubro, com 68 desfiles e 34 apresentações. Entre os momentos mais aguardados dos próximos dias estão Dior, Maison Margiela e Saint Laurent, além das estreias de Drew Henry na Courrèges e Kai Nesselrath na Carven.
Julie Kegels: quando a gravidade vira matéria-prima
Vencedora do LVMH Prize 2026, Julie Kegels abriu o calendário de desfiles com uma coleção dedicada à gravidade. Em vez de tratar o conceito apenas como inspiração, a designer transformou peso, queda e movimento em elementos concretos das roupas.
Calças com o gancho extremamente alongado, vestidos que parecem estar sendo puxados para baixo e peças de alfaiataria propositalmente “caindo” deram forma à proposta. Em alguns looks, saias e vestidos eram presos abaixo do busto ou do quadril, criando a impressão de que a roupa estava escorregando pelo corpo.
A designer também utilizou técnicas históricas de construção para criar esse efeito. Calças jeans e peças de alfaiataria pareciam estar desabotoadas, mas permaneciam presas às camisas por botões internos, em uma referência a métodos de fechamento do século XVIII.
O resultado foi uma coleção que combina experimentação e usabilidade. Entre os destaques apareceram tops de lantejoulas inspirados em um sutiã vintage, vestidos de organza e acessórios que funcionavam como pesos, criando assimetrias e drapeados no tecido. Em uma das propostas mais curiosas, pigmentos e paetês foram colocados entre camadas de organza para que, conforme as modelos caminhavam, o material se deslocasse e deixasse marcas nos sapatos.
Maxhosa Africa: um momento histórico para a moda africana
Um dos grandes acontecimentos do primeiro dia foi a estreia da Maxhosa Africa no calendário oficial de Paris. Liderada pelo designer sul-africano Laduma Ngxokolo, a marca se tornou a primeira sul-africana a apresentar um desfile completo dentro da programação oficial da Paris Fashion Week.
Apresentada na residência do embaixador da África do Sul na França, a coleção celebrou uma visão pan-africana e buscou mostrar a diversidade e o potencial criativo do continente. As roupas foram produzidas principalmente com lã de origem local e confeccionadas nas fábricas da própria marca em Joanesburgo e East London, reforçando também a preocupação com o desenvolvimento da indústria têxtil sul-africana.
A identidade visual apareceu nos padrões geométricos inspirados no trabalho artesanal Xhosa. Nomes de diferentes países africanos foram incorporados às peças de tricô, enquanto conjuntos coordenados, saias plissadas, tops, polos e ternos ganharam desenhos coloridos e gráficos.
O desfile ainda contou com óculos criados pelo artista queniano Cyrus Kabiru a partir de materiais reaproveitados e trilha sonora do músico sul-africano Sjava. O resultado foi uma coleção que coloca artesanato, indústria, cultura e identidade nacional dentro de uma mesma narrativa de moda.
Hodakova: o oceano como inspiração e alerta
Na sequência, Ellen Hodakova Larsson levou para Paris uma coleção inspirada no universo marinho. A designer, conhecida pelo trabalho de reconstrução de materiais e pela abordagem consciente da moda, partiu de uma experiência pessoal no mar para explorar a relação entre roupas, natureza e preservação dos oceanos.
A passarela foi coberta por sal marinho, enquanto a trilha sonora fazia referência ao filme Le Grand Bleu. Nas roupas, elementos ligados ao universo náutico apareceram em diferentes formas: tecidos encerados, golas de marinheiro, velas de barco, cordas e redes de pesca.
Um dos aspectos mais interessantes foi justamente a transformação desses materiais. Cordas grossas foram incorporadas a tricôs, enquanto redes ganharam aparência de barras orgânicas em vestidos. A transparência também apareceu de forma literal: algumas peças foram molhadas para alterar sua aparência durante a apresentação.
O desfile ainda apresentou um casaco construído com pequenos pedaços de couro reaproveitado, dispostos para reproduzir a textura da pele de crocodilo. A imagem dialogava com uma preocupação recorrente da designer em relação à exploração dos animais e à relação entre moda e natureza.
Matières Fécales: a moda dos 99%
Encerrando a noite, Matières Fécales apresentou uma das propostas mais politizadas do primeiro dia. O duo formado por Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran transformou a passarela em uma espécie de manifesto sobre representação e pertencimento.
Se a coleção anterior havia sido intitulada “The 1%”, em referência à elite que concentra riqueza e influência, a SS27 recebeu uma proposta oposta: “The 99%”. Os 99 modelos do desfile eram pessoas racializadas, escolhidas para representar diferentes grupos e identidades presentes na sociedade francesa.
Realizado sob o Monument à la République, espaço tradicionalmente associado a manifestações populares em Paris, o desfile incorporou elementos do punk e do metal, com couro, balaclavas, camisetas gráficas e peças que exploravam transformações do corpo.
A apresentação também caminhou para o universo da alta-costura. Tecidos indianos produzidos em Varanasi foram transformados em volumes inspirados nos anos 1950, enquanto o algodão tecido à mão em Burkina Faso apareceu em construções de noite e corseteria. Um dos vestidos utilizou cerca de 300 metros de tule.
A escolha de trabalhar com materiais e técnicas de diferentes regiões do chamado Sul Global ampliou a discussão proposta pelo desfile: como aproximar o universo exclusivo da alta-costura de culturas, comunidades e tradições que normalmente ficam distantes dos grandes centros de poder da moda.
Uma Paris que começa pela diversidade
O primeiro dia da Paris Fashion Week SS27 apresentou uma característica que deve acompanhar boa parte da temporada: antes mesmo da entrada dos grandes grupos de luxo, Paris abriu espaço para designers que estão propondo novas maneiras de construir, apresentar e pensar a moda.
Julie Kegels transforma a física em linguagem de roupa; Maxhosa Africa leva a identidade e a indústria têxtil sul-africanas para o centro do calendário oficial; Hodakova utiliza materiais ligados ao oceano para discutir sustentabilidade e relação com a natureza; e Matières Fécales transforma a passarela em plataforma para representação e pertencimento.
É uma abertura que reforça uma das principais características da moda contemporânea: o desfile já não precisa falar apenas sobre roupa. Ele pode ser também sobre cultura, tecnologia, meio ambiente, identidade e sociedade.
E, enquanto os grandes nomes se preparam para entrar em cena nos próximos dias, Paris SS27 começa deixando claro que a inovação pode vir de diferentes lugares e que a próxima temporada será construída tanto pelos grandes nomes da indústria quanto por vozes que estão ampliando os limites de quem pode ocupar o centro da passarela.