Depois de um segundo dia dominado pelas grandes maisons, a Paris Fashion Week SS27 avançou nesta quarta-feira, 30 de setembro, com uma programação que colocou diferentes visões sobre o futuro da moda no centro da passarela. The Row, Balmain, Dries Van Noten, Stella McCartney, Vaquera, Acne Studios e Tom Ford movimentaram o calendário com coleções que passaram pelo minimalismo sofisticado, pelo glamour cinematográfico, pela estética pirata e por uma moda cada vez mais conectada às discussões ambientais.
Entre os destaques, Dries Van Noten reforçou a força do glamour pelas mãos de Julian Klausner, enquanto Balmain aprofundou a sensualidade inaugurada pelo designer Antonin Tron em sua primeira temporada. Na Stella McCartney, a passarela virou manifesto em defesa dos oceanos. Já a Acne Studios mergulhou em uma estética de piratas e referências à própria história da marca. Fechando a noite, Tom Ford, sob direção de Haider Ackermann, explorou uma sensualidade mais intensa, com alfaiataria, couro, lingerie e transparências.
Confira os destaques de cada passarela!
The Row: o luxo do quase nada
Abrindo a programação do dia, The Row, das irmãs Mary-Kate e Ashley Olsen, manteve a proposta que transformou a marca em uma das principais referências do luxo discreto contemporâneo. A coleção apostou em silhuetas alongadas, materiais sofisticados e uma construção precisa, em que o impacto está muito mais no corte e na qualidade das peças do que em elementos decorativos.
A estética da marca continua distante da lógica de tendências imediatas. Calças de modelagem ampla, casacos estruturados, vestidos minimalistas e peças de aparência quase despretensiosa reforçaram uma ideia de luxo silencioso, mas extremamente sofisticado.
Em uma temporada marcada pelo retorno do glamour e pelo maximalismo visto em diferentes passarelas, a marca segue outro caminho: o desejo nasce da construção, da proporção e da sensação de exclusividade.
Balmain: sensualidade em primeiro plano
Na Balmain, Antonin Tron apresentou sua segunda coleção à frente da maison e aprofundou a direção iniciada na temporada anterior. O designer voltou a olhar para o arquivo da marca, especialmente para referências das décadas de 1940 e 1950, mas colocou o corpo feminino no centro da narrativa.
Drapeados, estampas de leopardo e referências militares, incluindo a tradicional jaqueta aviador, reapareceram em uma coleção que busca equilibrar a herança da Balmain com uma linguagem mais leve e contemporânea.
O resultado foi uma Balmain menos dependente do excesso e mais interessada na sensualidade das próprias formas. O corpo aparece, os tecidos acompanham seus movimentos e a roupa ganha um papel quase escultórico.
A estratégia também representa um amadurecimento da relação de Tron com a casa. Se sua estreia serviu para apresentar uma nova direção, o verão 2027 funciona como uma evolução dessa proposta, com maior clareza sobre os códigos que podem aproximar a Balmain de uma nova geração de consumidoras.
Dries Van Noten: glamour para a vida real
Um dos momentos mais celebrados do dia veio da Dries Van Noten, em sua terceira coleção sob direção criativa de Julian Klausner. Desta vez, o designer partiu de uma ideia poderosa: o desejo universal de se sentir glamouroso.
A inspiração ganhou forma a partir do cinema. Cartazes de filmes antigos, títulos fictícios e imagens carregadas de drama serviram como ponto de partida para criar uma coleção que parece saída de um guarda-roupa de estrelas de cinema.
Estampas ganharam protagonismo, acompanhadas por peças que exploram brilho, broches, cores intensas e detalhes capazes de transformar uma produção cotidiana. Klausner trabalha o glamour não como fantasia distante, mas como uma sensação que pode surgir de um único elemento: uma joia, uma cor, uma cintura marcada ou um acessório especial.
É justamente essa ideia que torna a coleção particularmente interessante para o momento atual da moda: em vez de abandonar a vida real em nome do espetáculo, Dries Van Noten encontra o espetáculo dentro dela.
Stella McCartney: a moda em defesa dos oceanos
Na Stella McCartney, o desfile ganhou uma dimensão que ultrapassou as roupas. Com o conceito “sea life, not seafood”, a estilista colocou a preservação dos oceanos e a relação humana com a vida marinha no centro da apresentação.
Realizado nos jardins da residência do embaixador britânico em Paris, o desfile contou com uma mensagem da oceanógrafa Sylvia Earle e trouxe referências diretas ao universo marinho. Ondas apareceram nas barras das peças, enquanto camisetas receberam imagens de golfinhos, tubarões e outros animais. A cartela também passeou por tons de azul, verde-mar e coral.
A proposta também reforçou a pesquisa da marca por materiais alternativos. A coleção não utilizou lã e incorporou tecnologias como o Brewed Protein, desenvolvido pela empresa japonesa Spiber como alternativa à lã e ao cashmere. A marca mantém ainda sua conhecida política de não utilizar couro, peles ou penas.
No lugar de uma sustentabilidade tratada apenas como atributo de produto, Stella transforma a própria passarela em espaço de discussão. A moda aparece, assim, como ferramenta para chamar atenção para questões ambientais urgentes.
Acne Studios: uma viagem pirata pelo arquivo
Na Acne Studios, Jonny Johansson olhou para o passado da própria marca e para referências culturais mais amplas para construir a coleção “Denim Hystoria”. O ponto de partida passou pelos New Romantics londrinos, movimento que trouxe uma dose de teatralidade, rebeldia e romantismo à proposta.
O cenário reforçou a narrativa. O Collège des Bernardins foi transformado em uma espécie de navio, com lustres de cristal e tapetes orientais distorcidos pelo artista Faig Ahmed, criando uma atmosfera entre o histórico e o fantástico.
A própria ideia de viagem também dialoga com a história da Acne Studios. Ao completar 30 anos, a marca revisita seus próprios códigos para entender como eles podem continuar relevantes sem perder a capacidade de provocar.
Tom Ford: sensualidade à flor da pele
O encerramento do dia ficou por conta da Tom Ford, que apresentou sua quarta coleção sob direção criativa de Haider Ackermann. O designer colombiano aprofundou a sensualidade que vem marcando sua passagem pela casa e aproximou ainda mais o guarda-roupa da ideia de fetiche.
A alfaiataria dividiu espaço com couro, lingerie, amarrações e transparências. O corpo aparece como parte fundamental da construção dos looks, enquanto os materiais criam uma tensão entre proteção e exposição.
Ackermann preserva alguns dos códigos mais reconhecíveis da Tom Ford: especialmente a relação entre poder, desejo e alfaiataria, mas imprime uma linguagem própria. A sensualidade deixa de estar apenas no corte e passa a fazer parte da construção das peças, com lingerie aparecendo como roupa, couro moldando a silhueta e transparências criando novas camadas.
Um dia entre glamour, memória e futuro
O terceiro dia da Paris Fashion Week SS27 mostrou que a temporada não está interessada em seguir uma única direção. The Row aposta na força do minimalismo; Balmain revisita sua história para evidenciar o corpo; Dries Van Noten transforma o glamour em desejo cotidiano; Stella McCartney usa a passarela como manifesto ambiental; Acne Studios mergulha no próprio arquivo e em referências piratas; e Tom Ford leva a sensualidade para uma dimensão mais intensa.
Em Paris, o passado continua sendo uma das principais matérias-primas para imaginar o futuro da moda.