Na mais recente Paris Haute Couture Week, o designer Robert Wun voltou a se destacar como um dos nomes mais originais e impactantes da alta costura contemporânea, apresentando uma coleção que ultrapassa os limites entre moda, performance e arte narrativa. A apresentação do estilista, nascida em Hong Kong e radicada em Londres, reforça sua posição como um dos couturiers mais inventivos da atualidade.
Wun estruturou sua coleção em três “atos” emocionais que exploram temas profundos do processo criativo: o sonho da criação, o confronto com a realidade do luxo e a coragem de seguir adiante. Cada segmento trouxe peças com fortes cargas simbólicas e visuais, traduzindo emoções por meio de formas esculturais, volumes dramáticos e motivos narrativos que remetem tanto ao imaginário cinematográfico quanto às batalhas internas vividas por artistas e criadores.
A primeira parte da coleção apresentou silhuetas em preto e branco inspiradas nos sonhos que nascem nas margens da imaginação. Bodices ajustados, grandes ombros arredondados e saias longas com contornos precisos pareciam emergir diretamente dos sketchbooks antigos de Wun, prova de sua capacidade de revisitar referências pessoais e transformá-las em poesia visual. Uma das peças principais foi um vestido monumental coberto de micro contas de vidro, uma obra de alta costura que combina impacto estético e precisão técnica.
No segundo ato, intitulado “Luxury: Confrontation of Reality”, a coleção confrontou diretamente a ideia de valor no mundo da moda de luxo. As roupas assumiram formas que lembram expositores de alta joalheria, com bodices moldados e máscaras inteiramente incrustadas de cristais, apagando a identidade humana e questionando o papel do objeto de luxo como algo desejado e temido ao mesmo tempo. Corsets pontiagudos em cores vibrantes e saias drapeadas com longas caudas intensificaram essa sensação de opulência desconcertante.
No ato final, “Valor”, Wun celebrou a determinação e obstinação do criador de moda, aqueles que persistem apesar das dificuldades externas e internas. Nesse segmento, elementos metafóricos entraram em cena, como uma armadura reluzente acompanhada de uma espada estilizada, sugerindo que coragem pode ser tão essencial quanto técnica para continuar no caminho criativo. A culminação emocional veio com uma peça final enorme, sequined em tons que lembram tempestades elétricas, encerrando o desfile com um senso quase mitológico de aura e presença.
A coleção de Wun foi um dos pontos altos da semana de alta costura, destacando-se por sua sensibilidade teatral, narrativa cinematográfica e habilidade técnica, transformando o espaço da passarela em um ambiente de emoção, questionamento e sonho. Em um momento em que a moda se reinventa entre tradição e inovação, Robert Wun prova que a alta costura continua a ser um território fértil para experimentação conceitual e visual, onde cada look funciona como capítulo de uma história maior.