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Second Hand September: por que a moda usada pode definir o futuro da indústria

1 de setembro de 2026

#Cultura de Moda

By: Redação

Setembro ganhou um novo significado para a moda. Enquanto as principais capitais do mundo se preparam para receber as semanas de moda de Nova York, Londres, Milão e Paris, com as coleções de primavera-verão 2027, o mês também convida o consumidor a olhar para o próprio guarda-roupa e questionar a necessidade de comprar sempre algo novo. É nesse contexto que acontece o Second Hand September, movimento criado pela Oxfam que incentiva o consumo de peças de segunda mão durante o mês e coloca em discussão um dos maiores desafios da indústria: como crescer sem produzir e descartar cada vez mais roupas.

Mais do que uma campanha pontual, o movimento acompanha uma transformação no comportamento do consumidor. Brechós, plataformas de revenda, peças vintage e mercados de segunda mão deixaram de ocupar um espaço marginal no varejo e passaram a fazer parte da estratégia de grandes marcas e grupos de moda. O crescimento do setor mostra que comprar uma peça usada já não significa apenas economizar: para uma parcela crescente do público, também representa encontrar exclusividade, prolongar a vida útil de um produto e participar de uma lógica diferente de consumo.

Um mercado que deixou de ser nicho

Os números ajudam a explicar por que o mercado de segunda mão ganhou tanta relevância. Segundo o Resale Report 2026, da ThredUp em parceria com a GlobalData, o mercado global de roupas de segunda mão deve alcançar US$ 393 bilhões até 2030, crescendo duas vezes mais rápido que o mercado geral de vestuário. O estudo também aponta que as gerações mais jovens, especialmente a Geração Z e os millennials, devem responder por mais de 70% do crescimento do mercado até o fim da década.

A transformação também acontece na maneira como as pessoas encontram essas peças. A revenda já não depende exclusivamente de brechós físicos ou plataformas especializadas. Redes sociais, criadores de conteúdo e mecanismos de busca passaram a participar diretamente da descoberta de produtos usados. Segundo o relatório de 2026, quase metade das descobertas de peças de segunda mão acontece por meio de redes sociais, criadores e canais digitais distribuídos.

É uma mudança importante porque altera a lógica tradicional da moda. Se antes o consumidor era estimulado a comprar uma peça, usá-la e eventualmente descartá-la, a economia de revenda cria um ciclo no qual o mesmo produto pode voltar ao mercado diversas vezes.

Do guarda-roupa para um novo ciclo

O crescimento do second hand também está mudando a própria definição de valor. Uma peça não precisa necessariamente ser nova para ser desejável. Pelo contrário: sua história, raridade, estado de conservação, assinatura ou pertencimento a determinada época podem aumentar seu valor.

É nesse território que o mercado de luxo encontrou uma nova oportunidade. Bolsas, relógios, acessórios e roupas de grandes maisons passaram a circular em mercados especializados, enquanto algumas marcas começaram a criar seus próprios programas de revenda. A estratégia permite que empresas acompanhem o comportamento do consumidor e, ao mesmo tempo, mantenham seus produtos dentro de um ecossistema controlado.

O movimento de revenda oficial pelas próprias marcas vem ganhando força. Segundo a ThredUp, a adoção de modelos de revenda por marcas cresceu 37% desde maio de 2025, e sua infraestrutura de revenda já é utilizada por mais de 60 marcas.

Isso aponta para uma mudança significativa: o futuro do varejo pode não estar apenas em vender mais produtos, mas em participar de todas as etapas da vida de uma peça.

Sustentabilidade, mas sem romantizar

A segunda mão costuma ser apresentada como uma solução para os problemas ambientais da moda, e existe fundamento nessa lógica. Quando uma peça é revendida e continua sendo usada, seu ciclo de vida pode ser prolongado e uma nova compra de um produto novo pode ser adiada ou substituída.

Mas o second hand não é uma solução automática para os impactos da indústria. O benefício ambiental depende de fatores como frequência de compra, logística, qualidade da peça e, principalmente, se a compra de segunda mão realmente substitui a aquisição de uma peça nova ou simplesmente se soma a ela.

Essa discussão é importante porque o futuro da moda circular não pode se resumir a trocar o “comprar novo” pelo “comprar usado” sem questionar o excesso de consumo. A mudança mais profunda está em transformar a relação com as roupas: comprar melhor, usar por mais tempo, reparar, trocar, revender e, somente quando necessário, reciclar.

A pressão também vem da legislação

A transformação não está acontecendo apenas pela vontade do consumidor. Governos e órgãos reguladores começam a pressionar a indústria para reduzir desperdícios e criar sistemas mais circulares.

Na União Europeia, novas medidas adotadas em 2026 passaram a atuar contra a destruição de roupas e calçados não vendidos. A Comissão Europeia estima que entre 4% e 9% dos produtos têxteis não vendidos na Europa sejam destruídos antes mesmo de serem usados, gerando cerca de 5,6 milhões de toneladas de emissões de CO₂.

Ao mesmo tempo, regras sobre rastreabilidade, reutilização, reciclagem e circulação de produtos usados começam a transformar a maneira como as empresas precisam pensar suas cadeias de produção. Um estudo conjunto da UNECE e da CEPAL publicado em 2026 destaca a necessidade de melhorar a rastreabilidade e a regulamentação do comércio internacional de roupas de segunda mão para que ele realmente contribua para a circularidade, em vez de simplesmente deslocar o problema dos resíduos entre países.

O próximo luxo pode ser a longevidade

Talvez a principal transformação provocada pelo Second Hand September seja cultural. Durante décadas, a moda construiu desejo a partir da novidade: a nova coleção, a nova tendência, o novo lançamento. Agora, uma parte do mercado começa a encontrar valor no contrário.

Uma peça antiga pode carregar uma história que uma roupa recém-produzida ainda não tem. Um vestido vintage pode ser mais exclusivo do que uma coleção produzida em milhares de unidades. Uma bolsa usada pode representar um investimento que continuará circulando por diferentes proprietários. E uma roupa bem conservada pode ganhar novas vidas em vez de terminar rapidamente em um aterro.

O resultado é uma mudança na própria ideia de luxo. Se o luxo do século XX estava relacionado à exclusividade e o do início do século XXI passou pela novidade, o próximo capítulo pode estar ligado à longevidade.

Nesse cenário, o Second Hand September funciona menos como um convite para passar um mês sem comprar roupas novas e mais como uma provocação para toda a indústria. Em uma temporada em que as passarelas de Nova York, Londres, Milão e Paris apresentarão milhares de novas peças para a primavera-verão 2027, olhar para aquilo que já existe pode ser tão importante quanto imaginar o que ainda será criado.

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TAGS:

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