Em uma temporada marcada por mudanças nas grandes casas de moda, alguns desfiles ultrapassam a apresentação de uma nova coleção e se tornam marcos na história de uma marca. Foi o que aconteceu em 7 de fevereiro de 2025, quando Veronica Leoni estreou como diretora criativa da Calvin Klein Collection durante a Semana de Moda de Nova York. O desfile de outono/inverno 2025 marcou o retorno da linha de luxo da grife às passarelas após aproximadamente sete anos de ausência, desde a saída de Raf Simons, em 2018.
Realizada na sede histórica da Calvin Klein, no número 205 da West 39th Street, em Manhattan, a apresentação carregava o peso de reintroduzir uma das marcas mais emblemáticas do minimalismo americano no calendário internacional. A expectativa era alta: além de inaugurar uma nova direção criativa, Leoni se tornou a primeira mulher a assumir o comando criativo da maison, fundada por Calvin Klein em 1968.
A ocasião também reuniu nomes fundamentais para a história da marca. O próprio Calvin Klein acompanhou o desfile, ao lado das modelos Kate Moss e Christy Turlington, duas figuras associadas à estética e às campanhas icônicas da grife nos anos 1990. A presença desse trio reforçou o caráter simbólico de uma apresentação que buscava estabelecer uma ponte entre a herança da Calvin Klein e uma nova interpretação de seu estilo.
O minimalismo americano sob uma nova perspectiva
Para sua estreia, Veronica Leoni escolheu revisitar os códigos que ajudaram a definir a identidade da Calvin Klein: linhas limpas, peças essenciais, alfaiataria precisa e uma sensualidade que não depende necessariamente da exposição do corpo. Em vez de recorrer a uma releitura literal do arquivo, a estilista partiu da essência da marca para desenvolver uma proposta contemporânea, com atenção especial às proporções, aos materiais e à construção das roupas.
A coleção abriu com um conjunto de alfaiataria cinza-claro, composto por jaqueta sem gola e saia lápis na altura dos joelhos. A silhueta enxuta evocava a elegância urbana dos anos 1990 e estabelecia o tom da apresentação. Na sequência, surgiram casacos estruturados, trench coats, camisas, calças de corte estreito e peças de jeans que reforçavam a ideia de um guarda-roupa funcional, pensado para acompanhar diferentes momentos do cotidiano.
A proposta, no entanto, não se limitou à sobriedade. Leoni explorou o contraste entre peças rígidas e construções fluidas, aproximando a alfaiataria de tecidos que acompanham o movimento do corpo. Vestidos de malha com drapeados volumosos e um smoking transpassado encerraram o desfile, introduzindo uma dimensão mais expressiva à coleção.
A sensualidade como assinatura
Um dos desafios da nova direção criativa era recuperar a sensualidade associada à Calvin Klein sem depender exclusivamente de suas campanhas de jeans e underwear. Leoni abordou essa questão por meio de peças que sugeriam intimidade, com referências à lingerie incorporadas a um guarda-roupa mais amplo.
A relação entre corpo e roupa apareceu em blusas de malha, vestidos inspirados em combinações de dormir e peças de alfaiataria que equilibravam estrutura e descontração. O resultado foi uma sensualidade mais contida, construída por meio do corte, do caimento e da maneira como os tecidos se aproximavam da silhueta.
A estilista também apresentou bolsas de festa inspiradas no frasco do perfume CK One, transformando um dos objetos mais reconhecíveis da história da marca em acessório. A criação sintetizou a intenção de Leoni de buscar referências no universo Calvin Klein sem depender de reproduções evidentes de peças antigas.
Uma nova etapa para a Calvin Klein Collection
Antes de assumir a direção criativa da maison, Veronica Leoni construiu uma carreira ligada a marcas conhecidas pela precisão estética e pela pesquisa de construção. A estilista italiana trabalhou na Jil Sander, participou da equipe de Phoebe Philo na Céline, passou pela Moncler e fundou sua própria etiqueta, a Quira. Essa trajetória ajudou a explicar a escolha de uma profissional com familiaridade com o minimalismo, mas também com experiência em diferentes interpretações da roupa contemporânea.
A estreia foi recebida como um retorno promissor para a linha de luxo, embora a crítica tenha apontado que a coleção ainda precisava aprofundar a tensão entre a pureza estética e a sensualidade provocativa que distinguem a Calvin Klein. Mais do que oferecer uma resposta definitiva, o desfile apresentou as bases sobre as quais Leoni pretendia construir sua visão para a marca.
A passagem de Veronica Leoni pela maison termina agora em outubro de 2026, após quatro temporadas. Ainda assim, sua estreia permanece como o momento que reabriu esse capítulo da história da Calvin Klein. Em fevereiro de 2025, a estilista não apenas apresentou uma coleção de estreia: devolveu a marca à passarela e iniciou uma tentativa de traduzir o minimalismo americano para uma nova geração.