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Por Carolina Altarejo

Ressignificar. Repensar. Reestruturar. Nunca se colocou tanto esse prefixo perante verbos que demonstram atitudes pré-estabelecidas. A pandemia e o isolamento social nos levaram a refletir sobre as ações e estruturas estipuladas de forma automática e inconsciente. Nesse cenário, a moda, que tanto sofreu com a redução do consumo, também passa a analisar suas origens e destinos de modo a considerar outro sistema de trabalho, mais lento, mais sustentável e significativo, que nos leva até mesmo de volta à sua origem como forma de arte e representação cultural.

Estamos falando do slow fashion, um sistema que busca minimizar os danos causados pela moda ao máximo, com base em uma produção artesanal e totalmente consciente. De acordo com as autoras do livro “Moda e sustentabilidade: design para a mudança”, Kate Fletcher e Lynda Grose, o slow fashion representa uma nova visão para estimular o consumo regional, a diversidade de estilo, o “feito-à-mão” e a exclusividade. Elas apontam que um dos principais aspectos desse sistema é o ciclo de vida do produto, que respeita todas as sucessivas cadeias até ser produzido, consumido e descartado de volta para o meio ambiente. Dessa forma, trata-se de muito mais do que definir a velocidade da moda, mas de consumir de forma responsável, conhecendo todo o processo que envolve uma única peça de roupa.

Para falar mais sobre esse movimento, convidamos a Diretora Executiva do Fashion Revolution no Brasil, Fernanda Simon.

moda
Imagem: Divulgação

1.Em maio, a ABEST (Associação Brasileira de Estilistas), devido às limitações da pandemia, decidiu mudar o calendário brasileiro de coleções e afirmou estar refletindo sobre o slow fashion. Será esse o ponto de partida para impulsionar o movimento?

Na verdade, a ABEST já representa marcas pequenas que estão mais conectadas com o slow fashion. Eu acredito que essa mudança possa resultar em uma melhora nos processos das marcas que fazem parte da Associação e até inspirar outras marcas a aderirem ao movimento.

2.Como você acredita que esse novo olhar sobre a moda e a consciência de consumo intrínseca à nova geração farão com que as marcas mudem seus diálogos? 

As marcas são influenciadas a partir do comportamento do consumidor. Para atender esse público mais engajado e as novas gerações, tanto os Millennials quanto a Geração Z, que são mais preocupadas com o propósito, preferem qualidade, são ativistas e estão envolvidos com causas, as marcas necessariamente precisam mudar, pois eles passam a ter poder de compra.

3. É possível, para uma marca fast fashion, adotar o slow fashion sem prejudicar sua identidade?

Não, porque são modelos de negócios totalmente diferentes. Se uma marca cresceu a partir do fast fashion, que é um modelo baseado na alta produção, que não se preocupa com a qualidade e vende muito, é o oposto do slow fashion e não tem como mudar totalmente. Acredito que seja mais fácil abrir um novo negócio do que fazer essa adaptação. Mesmo que a marca decida mudar, com certeza a identidade dela será outra, porque sua raiz será mudada, o modelo da sua existência. No entanto, as fast fashion’s podem sim explorar algumas vertentes do slow fashion para melhorar os seus negócios.

4.Com a produção e o consumo realizados de forma mais lenta, como ficam as tendências? Existe alguma forma do slow fashion aderi-las?

No slow fashion, o que vale são os processos, as histórias, quem fez, como fez, as matérias-primas locais. É um conceito totalmente descontextualizado da tendência. Ela vem do sistema desse efêmero da moda que cria para “morrer”. O slow cria e propõe elementos que são atemporais. Alguns podem até surgir e se popularizar, mas não a tendência como a conhecemos hoje num mercado tradicional da moda.

5.Um dos grandes desafios para as marcas que praticam o slow fashion é se promover e, ao mesmo tempo, defender o consumo consciente. Como isso funciona na prática?

Realmente é uma dificuldade para as marcas falar em vender quando também se fala em consumo consciente e em uma indústria que já está repleta de produtos. Por isso, elas têm que se conectar com os valores com os quais trabalham e falar sobre o que esses produtos representam, o impacto positivo que eles trazem. Se uma pessoa consome um produto daquela marca, ela apoia toda uma cadeia que traz diversas coisas boas para a humanidade, e não é só mais um produto que vem de um sistema exploratório e poluidor.

6.Como começar a adotar o slow fashion?

Para começar, é preciso ter consciência do que acontece no setor da moda, pesquisar, ler, fazer um exercício interno de como você pode melhorar suas práticas, seja olhando para dentro do seu armário, comprando menos e fazendo escolhas melhores. A pirâmide do consumo consciente é muito boa para isso.

Para uma marca que quer adotar o slow fashion em seus princípios, sugiro procurar entender qual é o seu valor, propósito e o que ela faz pelo mundo para, a partir dessa análise, rever todos os seus processos, tanto para trás quanto para frente, ou seja, entender de onde o seu produto veio e para onde ele vai.

 

Para saber mais:

Movimento Fashion Revolution (fashionrevolution.org/)

App Moda Livre

Documentário “The True Cost”

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