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*Por Mattheus Lopes

“Eu sempre cobrei representatividade, principalmente dentro do mercado plus size” Medenuncia a modelo, influenciadora digital, e colunista da Vogue Brasil, Rita Carreira (@ritacarreiraa) sobre a falta de representação até mesmo onde se pressupõe uma diversidade de corpos. Na entrevista concedida para a jornalista editora de Beleza e Wellness da Vogue Brasil, Luanda Vieira (@luandavieira), Rita conta sobre sua carreira como modelo, a união das redes sociais como forma de protesto e beleza com propósito.

Carreira conta que ser mulher negra e gorda é uma intersecção de preconceitos sociais. Por mais que ela incremente em seu trabalho o movimento de aceitação corporal, ela estressa que é impossível falar de corpos e não apontar as cores deles e como isso os influencia no cotidiano – “O que eu falo é o que eu vivo. O quanto demorou para eu alcançar onde eu estou não foi apenas porque sou gorda, mas porque também sou negra. Quando as pessoas ouvem sobre mercado plus size já imaginam que é um mercado desconstruído, mas na verdade não”. A carreira de modelo não era um objetivo de Rita. Em 2011, aos 17 anos, ao acompanhar sua irmã Carol Santos, no Fashion Week voltado para o mercado plus size no Brasil, Rita foi encorajada pelos organizadores do evento a seguir a carreira pois ela tinha potencial. Dois anos depois, Rita começou a realizar catálogos de moda atacadista porém de forma não linear – “Sempre foi muito difícil eu ter uma frequência de trabalho. Conseguia apenas de seis em seis meses. E isso me deixava muito insegura”.

A insegurança, a modelo conta, se deu pela constante comparação e competição que existia entre ela e outras modelos, chegando a duvidar de seu potencial para trabalhar “até o dia que eu me deparei com a dona de uma marca dizendo que ela ‘jamais colocaria uma modelo na campanha dela pois empobreceria a marca’ “. A partir deste momento, Rita entendeu que o problema não era suas competências como modelo mas sim o preconceito das pessoas. Porém a resistência e vontade de Rita de mudar os padrões a fez querer ser um exemplo de diferença e ponto de inspiração para si e para outras meninas igual ela. Rita relembra o dia em que pegou sua bolsa e se despediu de seus colegas de trabalho em uma loja de shopping, com a ultima fala sendo “Estou indo seguir o meu sonho”.

Após ter conseguido se concretizar no mercado, Rita decidiu usar sua visibilidade em editoriais de revistas, comerciais e passarelas para trazer a pauta da existência de corpos que não eram representados não porque não existiam mas pela falta de oportunidades – “Eu sempre cobrei apenas uma oportunidade, para poder mostrar o meu potencial pois eu sabia que eu poderia carregar a representação de uma comunidade. Eu hoje eu enxergo que eu devo fazer a oportunidade acontecer ocorrer, não basta nós estarmos nos lugares, nós temos que realmente ocupá-los, se fazer presente”. A questão de espaço de fala é algo que vem sendo debatido no mercado da moda ultimamente, para a entrevistadora Luanda Viera, a questão de diversidade vista como uma cota para apenas alguns representantes de minorias não basta pois não atinge de maneira efetiva para que os debates sejam promovidos, se estes poucos representantes não são encorajados a propor suas singularidades que venham a destoar do que está concretizado – “Não basta você ser chamado para a festa e não ser convidado pra dançar”.

Depois de diversas experiências de racismo em sua infância e adolescência, Rita encontrou em sua mãe um ponto de referência para construir sua autoestima. Sua família, ela conta, a auxiliou a entender que sua negritude é um processo de constante aceitação e luta, e hoje ela buscar ser essa mesma influência para outras pessoas – “Autoestima não é algo imediato. Você deve olhar para o espelho com mais carinho, e não procurando defeitos. Celulite, manchas e estrias são histórias que seu corpo narra. Uma cicatriz conta que você passou por uma situação e hoje você superou”.

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Luanda Vieira

Ainda que o crescimento do mercado de peças plus size tenha trazido maior representação para corpos diferentes, o enrijecimento quanto aos padrões de beleza continua presente, pois de acordo com Rita é o modelo entendido como sendo o tradicional, costumeiro, a exclusão beleza de pessoas brancas como únicas a serem atendidas. Além do apoio para que este mercado cresça, a modelo denota que não podemos nos contentar com o pouco – “ O mercado plus size está sem identidade porque acabam fazendo tudo do mesmo. São poucas as marcas que se atrevam a sair da bolha, e trazer referências novas. O mercado tem potencial, tem consumidores, o que falta no processo criativo são pessoas dispostas a fazer uma diferença para que o mercado possa evoluir. Eu fico feliz de depender não apenas de marcas plus size para trabalhar, mas eu abro espaço para elas também.”

As convidadas retomam, que este ano passos já estão feitos, contudo de formas distintas. Versace desfilou em sua passarela a coleção primavera-verão 2021 com modelos que destoaram dos corpos padrões já concretizados nos desfiles, porém de maneira sucinta. Porém, seguindo a tradição da marca amada pelos millenials e geração z, a Savage x Fenty encabeçada pela cantora Rihanna, apresentou diversos formas de diversidade de raças, corpos, sexualidades e gênero em sua coleção Fenty Skin de peças intimas, ressaltando que o conceito de diversidade por si só inclui não apenas um modelo do que significa ser diverso e inclusivo – “Eu acho que o ponto principal da Rihanna é que ela consegue enxergar beleza em pessoas que são muito diferentes. E é exatamente sobre isso, sobre desconstruirmos o que é o conceito de beleza”.

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Rita Carreira

O desfile da Savage x Fenty, para Rita ajuda a subverter a ideia de alienação e acabar como por exemplo com a gordofobia e a pressão estética. A primeira é relativa as dificuldades que pessoas gordas têm de acessar oportunidades e espaços em seus cotidianos justamente pelo preconceito direto ou indireto, como por exemplo assentos e espaços pequenos em aviões e transportes públicos. Já a pressão estética, é algo que afeta todos os setores estéticos. É uma constante expectativa e cobrança de se alcançar a perfeição externa.

Por fim, Rita e Luanda debateram a inclusão dos termo “modelo plus size”. Para elas não existe mais a necessidade de criar uma diferenciação pois o termo plus size é voltado para o nicho mercadológico, não para indivíduos pois para ela ser gorda – “nada mais é que uma característica. Nós temos esse medo de falar o termo pois ainda o consideramos como pejorativo. A gente precisa normalizar esse termo”. Uma maneira de se estabelecer essa igualdade entre o conceito do que é ser uma pessoa modelo e uma pessoa modelo plus size é deixar de lado a perspectiva de que exista apenas um tipo desta categoria – “Não teremos mais que justificar a carreira de quem é gordo(a) no mundo da moda, pois o espanto das pessoas ao saberem que gordos também estão na indústria não vai existir mais.”

 

* Mattheus Lopes – Mattheus Lopes tem 21 anos, é estudante de jornalismo na PUC Campinas, ama estudar a moda como uma expressão social. É criador e apresentador do podcast de entrevistas “It Belongs to The People”,  com uma perspectiva de debates sociais. Mattheus contribui com a cobertura do Iguatemi Talks Fashion para o site da Z Magazine.

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