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                  por Clotilde Perez*

Clotilde Perez é semioticista. Professora titular de Publicidade e Semiótica da ECA USP. Fundadora da Casa Semio. Líder do GESC3 – Grupo de Estudos Semióticos em Comunicação, Cultura e Consumo da USP. Vice-presidente da FELS – Federación Latino-Americana de Semiótica.

O filme publicitário que posiciona a coleção Dior Outono-inverno – AW21-22, intitulada pela diretora criativa da marca Maria Grazi Chiuri de “Disturbing Beauty” ou beleza perturbadora, publicado nas redes sociais no dia 8 de março, está baseado nos contos de fadas, ainda que em versão noir e um tanto gótica, mas é muito mais do que isso. A genialidade da ideia se encontrou com a genialidade da produção de artistas excepcionais ambientada no esplendoroso Château de Versailles, com tudo que ele significa como signo de beleza, glamour e nobreza, mas também do poder absoluto, do patriarcado e da opulência.

O filme começa com os raios de sol penetrando uma floresta rarefeita e sombria, um escuro amanhecer, com cena cortada pela marcação de um relógio que, com novo corte, retorna à floresta já com corpos dançantes, sugestivamente desnudos, cobertos apenas por uma segunda pele assemelhada aos tons de pele de cada bailarino, pasteurziarando a sexualidade, homens e mulheres igualados pelo mimetismo do corpo. Em dança delicada, os corpos juntam-se e se direcionam à escadaria que tem ao fundo a silhueta do castelo. O sol vai nascendo. Do jardim de Versailles em sua perfeição identitária, os corpos amalgamados seguem para o interior. Oito corpos em movimentos de recolhimento e expansão, adentram os espaços e se direcionam a uma escadaria, uma dentre as 67 possíveis.

Imagem: Divulgação

O corte para a cena da floresta, já menos sombria, mostra um corpo feminino deitado e novo corte para dentro do château coloca em evidência outro corpo feminino vestido, coberto de rosas encarnadas espedaçadas, estabelecendo o diálogo natura-cultura. Os raios de sol, bem como a iluminação que penetra a janela juntamente com as velas fazem despertar ambos os corpos que, apesar dos esforços, se levantam e dançam, mas por pouco tempo, são tomados por uma penetrante dor no peito, se esvaem e novamente se deitam, se aquietam. Uma referência à bela adormecida está aqui dada ainda que o acordar seja rápido, sofrido e efêmero. Dentro do château uma jovem modelo em tom noir observa a mulher que antes tentava levantar-se e sobreviver, nitidamente uma mulher mais velha, que agora está diante de uma superfície com espinhos; curiosa a jovem avança no espaço e nota que a imagem daquela mulher é sofrida, assustada e um tanto enlouquecida; a jovem não se detém e entra no espaço que se revela: Galerie des Glaces e segue seu trajeto-desfile de modo a evidenciar a beleza sofisticada e o glamour da ambiência de 73 metros de comprimento e mais de 12  metros de altura, com 17 espelhos hiperbólicos que refletem as 17 janelas arcadas que dão vista para os jardins.

Imagem: Divulgação

A partir daí a magia novamente atua por meio da intervenção da artista italiana Silvia Giambrone que cobriu os formosos espelhos tornando-os opacos e mais, com longos espinhos e algumas sugestões de rachaduras/caules tortuosos, fundinho e metaforizando espelhos em rosas. A ambiguidade da rosa que é signo de beleza, amor e perfeição, mas também de sofrimento pela potencialidade da dor motivada pela penetração dos espinhos, se junta a toda a anfibologia simbólica do espelho. Espelho que é verdade, sinceridade do corpo, da alma e da razão, mas que é pura magia; que revela o presente e se dá a adivinhação. Símbolo da sabedoria e do conhecimento, por isso as costumeiras associações com a verdade; signo do desconhecimento está no espelho coberto de pó, representante daqueles que têm o espírito obscurecido pelo encargo da ignorância.

Imagem: Divulgação

É um símbolo solar porque o sol é o espelho que reflete a inteligência celeste, mas também é lunar porque a lua é o espelho que reflete a luz do sol. Reflete a realidade, mas também a inverte, mostrando seu duplo, deslocado. É signo da harmonia e da serenidade, assim como o espelho partido é símbolo da separação e da maldição, incorrendo em muitos e muitos anos de azar. Temos fascínio pelo espelho. Como nas histórias da nossa colonização, quando portugueses ofertavam espelhos aos nativos envolvendo-os na magia de suas próprias imagens, o que facilitava a pilhagem do ouro e das pedras preciosas. Por isso, o homem utilizou vários materiais como espelho ao longo da história; a superfície do bronze foi usada como espelho, mas também a água como no mito de Narciso. Utilizamos a própria história como espelho, mirando-nos nela para aprendermos com o passado e projetarmos o futuro.  Mas, na narrativa idealizada por Maria Chiuri o espelho-rosa vem carregado dos pesos enfrentados por todas as mulheres há séculos. Os excessos de trabalho, de cobranças, de padrões rígidos de beleza, de expectativas comportamentais.

O espelho que pode ser vaidade e reforço da beleza é o dispositivo que fere porque não revela o pacote perverso de adequação a todas as convenções, mas revela o que somos, em nossa incompletude inevitável. Modelos com roupas bem-comportadas que sugerem uniformes colegiais, golas fechadas, altas, mangas que cobrem, lenços e toucas, lenços e capuzes sobrepostos, semblantes compenetrados, desfilam pela galeria dos espelhos-rosas; seus corpos já não refletem nada. As bailarinas seguem suas performances diante dos espelhos-rosa-espinhos ameaçadores que nada espelham, mas produzem sombras, que são evidências dos males e tristezas causados pela não adequação aos padrões cristalizados. As sombras se juntam ao contexto noir ecoado também nos tules negros que ocultam e revelam os sofrimentos. Os espelhos-rosa além de revelarem as sombras dos corpos, põe em evidência as esquadrias das janelas em frente, formando cruzes e grades, o aprisionamento inevitável.

Imagem: Divulgação

A sonoridade é espetacular e recobre de sentidos tensionados; neste momento a música ritmada e sinistra é invadida pelos sons do relógio, metáfora do tempo que passa, e a partir do som de uma rachadura temos a certeza do tempo que passou, o que para a mulher, piora sua relação com espelho, tornando-o mais espinho do que qualquer possibilidade de deleite, vaidade e fruição. As bailarinas diante do espelho seguem sua performance, como em um diálogo, mas demonstram suas marcas, colã rasgado, mulheres feridas. O desfile agora traz a mulher rosa desabrochada e esvoaçante, mas seu semblante segue circunspecto. Outra modelo adentra a galeria dos espelhos-rosa com um longo vestido vermelho de tule encarnado, costas à mostra e peito-coração transbordante, mas que, como tantas outras, não vê sua imagem refletida porque, como os fantasmas, não tem existência.

Imagem: Divulgação

O som, agora romântico, traz a ruptura com a tensão, a mulher de vermelho desce apressadamente as escaladas onde se nota esparsos raios solares perdendo potência.  Direciona-se à saída e nas janelas vê-se o crepúsculo e a noite chega. Ela sai pelo jardim escurecido em busca de algo, desce as escadarias do jardim e toma a consciência que já não há mais tempo, a lua discreta à direita é a nesga da certeza do tempo passado. E no caminho pelo paralelismo da vegetação alta e sombria, ela desaparece. O marcador do relógio chega ao XII, meia-noite, a sentença da Cinderela e a sonoridade define, acabou o tempo. Dior assina.

Idealizado por Maria Grazi Chiuri, realizado pelo cineasta Fabien Baron, com cenografia da artista Silvia Giambrone e coreografia da israelense Sharon Eyal, com corpo de bailarinos fantásticos e equipe exemplar, Disturbing Beauty de Dior é uma obra-prima. Poderia “só” mostrar a coleção, poderia “só” ambientar o desfile em Versailles, poderia “só” usar lindas modelos e bailarinos, poderia “só” ressignificar os contos de fadas, poderia “só” fazer a critica a condição da mulher, mas decidiu fazer tudo isso com perfeição, sensibilidade e arte. Um espetáculo transbordante e cheio de sentidos.

Confira o vídeo “Disturbing Beauty”: 

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