Fernanda
            @fernandagsfontes

Por Fernanda Fontes

Com certeza você já se deparou com peças de moda, sejam elas vistas em estampas, design de roupas ou acessórios que remetam a expressões culturais de determinada comunidade, etnia ou nacionalidade. Quer um exemplo? Na coleção resort 2020 de Carolina Herrera, o estilita Wes Gordon desenvolveu peças que  reproduziam elementos ilustrativos de povos indígenas nativos do México, porém não houve qualquer citação à inspiração, parceria com a comunidade mexicana e/ou ganhos (diretos ou indiretos) revertidos ao povo que teve sua cultura exposta sem consentimento.

Apropriar-se destas características marcantes, aplicando-as em coleções de grandes marcas não tem sido visto com bons olhos, já que descaracteriza a história e valores do povo em questão.

Vários são os casos e formas de apropriação que podemos citar, dessa forma temos diferentes definições e entendimentos sobre o tema. Alguns defendem que apropriação cultural é caracterizada pela dominação de uma cultura majoritária sobre uma minoritária, que sofreu repressão e preconceito, como o caso do uso de turbantes característicos da cultura afro e cocares da comunidade indígena. Para outros a simples apropriação, independente da forma ou comunidade envolvida, já caracteriza o desrespeito.

Levando em consideração a apropriação cultural de forma mais ampla, escolhi um caso que repercutiu muito no cenário internacional, trazendo em cena a grife francesa Christian Dior e o pequeno vilarejo de Beius, na região de Bihor, na Romênia.

A coleção pré outono-inverno 2017/18 da Dior repercutiu negativamente ao inspirar-se em vestimentas tradicionais do povo de Bihor, apresentando em seu desfile coletes extremamente semelhantes, senão idênticos, aos produzidos pelas artesãs locais, que há mais de cem anos preservam a cultura e identidade destas peças, que são de grande importância para o legado deste povo.

Ocorre que, a reprodução dos coletes não teve qualquer referência ao trabalho desenvolvido pelos romenos, caracterizando assim a apropriação do trabalho autoral, bem como da expressão cultural tradicional desta comunidade. Além disso, as peças foram vendidas por valores muito superiores àqueles praticados pelas artesãs sem que as mesmas tenham obtido qualquer benefício financeiro.

Apropriação cultural na moda

Ao ser entrevistada, uma das artesãs defendeu que “Embora faça sentido que a inspiração aconteça, achamos um pouco injusto que nada retorne em termos de dinheiro ou mesmo relações públicas à comunidade que está lutando para manter as tradições vivas. Como resultado, essas tradições estão morrendo”. Claramente os cidadãos desta região em conjunto com suas expressões culturais, foram afrontados e tiveram prejuízos que poderiam ter sido poupados.

Diante de tudo que ocorreu, o caminho encontrado como alternativa foi o seguinte: a revista de moda Beau Monde, cujo conteúdo é exclusivamente romeno, lançou uma campanha a fim de defender a cultura do seu povo, além de preservar e valorizar a arte da região de Bihor. Assim nasceu a Bihor Couture, uma autêntica marca romena com artesãos locais como designers, criada para ajudar os criadores locais a vender suas roupas e continuar seu artesanato que, além do lucro obtido, arrecadou renda para fundar a única escola de costura tradicional da região, assim a tradição sobreviverá.

Apropriação cultural na moda
Designer DORINA HANZA da Bihor

Além disso, a fim de promover a marca, foi criada uma loja para vender os produtos fabricados na região lançada em conjunto com uma grande campanha para promover as artesãs e seu trabalho que foca nos fatos de as peças serem, além de originais, mais baratas.

Bem, felizmente esse caso teve um desfecho positivo para a comunidade que sofreu a apropriação, mas nem sempre é o que acontece.

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