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Por Raíssa Zogbi* 

Da esperada estreia de Pieter Mulier, na Alaïa, ao tão aguardado de Balenciaga, com desfiles presenciais e virtuais, a temporada de inverno 2021 de alta-costura trouxe tendências e mensagens a partir das produções que traduzem e fazem referência a um cenário mais promissor da pandemia.

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Imagem: Divulgação

Por meio de flertes com a arte moderna e contemporânea, essa edição da couture coloca em pauta questões já abordadas pela moda, como responsabilidade ambiental e social, feminismo, multiculturalismo, diversidade de gênero e tecnologia e aponta para um maior alinhamento ao cenário. A Professora titular de Publicidade e Semiótica da USP e fundadora da Casa Semio, Clotilde Perez, explica essa relação e identifica mensagens que dialogam com o contexto. “A retomada dos desfiles presenciais das marcas de alta-costura instalou sentidos muito próprios do nosso tempo ainda pandêmico, mostrando o quando a moda é um caminho privilegiado de entendimento e de expressão do zeitgeist (espírito do tempo). Humanismo sensível, escapismo imaginativo, melancolia sutil e o vínculo seguro são os valores expressos nas coleções Fall 2021-2022”, explica. Acompanhe.

 

Humanismo sensível

Pelo fato de a conexão com as tecnologias ser cada vez mais intensa, a presença humana nas produções vai ser cada vez mais requisitada. E como ela já era uma premissa da alta-costura, as marcas de luxo souberam aproveitar o momento. “As referências ao humanismo estão marcadas pelo investimento em tecidos que demandam alto envolvimento e trabalho”, explica Clotilde.

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Imagem: Divulgação

Dior: A coleção de Maria Grazia Chiuri explora uma cartela de cores de preto, branco, cinza e tons terrosos com foco total no tecido. São ternos, tailleurs e vestidos de contos de fadas com tom escapista. “O humanismo sensível acontece na tapeçaria panorâmica que abriga o desfile da Dior, desenhada pela artista Eva Jospin inspirada nas paredes da Sala do Bordado Indiano no Palazzo Colonna, na Itália e tecida em uma comunidade de mulheres na Índia”, lembra a especialista.

Chanel: Com foco no impressionismo, no cubismo e na era do jazz, Chanel também carrega o olhar e a dedicação humana nas peças. “Na jaqueta Chanel feita com fios de plumas, que consumiu mais de 2.000 horas de trabalho manual altamente especializado, e nos espaços cênicos como o Palais Galliera, inspirado no Renascimento Italiano, sabidamente período de florescimento e valorização das artes e das ciências”, salienta Clotilde.

Valentino: “A ambientação do desfile da Valentino no Arsenale, em Veneza, reconhecido espaço expressivo da pujança da cidade durante o Renascimento, é uma referência imediata do humanismo na sua face sensível e criadora. Humanismo nas roupas, tecidos e acabamentos, nos acessórios, na arquitetura e nas sonoridades e nas temáticas que nomeiam os desfiles”, explica.

 

Escapismo imaginativo

Na esperança e sede por dias melhores, as grifes trabalharam o escapismo como forma de já prever um retorno nada discreto às festas e aos eventos. “As bijuterias corpóreas de Schiaparelli, metonímias hiperbólicas de narizes, bocas e lábios, orelhas e até pulmões, dão o tom imaginativo e sugestivo da sensibilidade, do mesmo modo que intensificam a presença pela energética e estimulante cor dourada”, conta Clotilde.

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Imagem: Divulgação

O brilho e o volume, bastante marcante em Valentino, também surgem para reforçar o desejo de fugir da realidade. “Os brilhos intensos de Armani e o próprio título do desfile Shine, nos aproximam de um mundo eufórico, ainda que contido. A suspensão da realidade com o consequente distanciamento do cotidiano também está presente nos imensos volumes de saias, capas e mangas em cores nada naturais de Schiaparelli e dos vestidos de festa da Valentino. Dobras, sobreposições, babados, drapeados e cores intensas favorecem o glamour e a opulência desconcertante e fantástica”, pontua a professora.

 

Melancolia sutil

Sendo a moda o reflexo da sociedade, como não falar sobre os mais diversos sentimentos vividos durante mais de um ano de pandemia, novos hábitos e adaptações? A expressão da melancolia também teve espaço nas coleções. “Inevitáveis as expressões de sofrimento no conjunto dos desfiles da alta-costura, o que sinaliza um luxo conectado com o seu tempo”. Clotilde reforça a escolha da voz de Cosima, cantora inglesa, que interpretou ao vivo Calling You na abertura do desfile da Valentino. “Inadvertidamente poderia levar às lágrimas o público”, conta.

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Imagem: Divulgação

Os tons sóbrios e o monocromático também marcam essa tendência. “A austeridade da monocromia e das roupas pretas na ambiência também preta de Azzaro é outro sinal de um espírito contido. Um sentimento de incapacidade, de perda do humano, de tristeza e certo lamento também se materializaram nas cores em tons pastel de Dior e principalmente na coleção em tons suaves e neutros de Giorgio Armani”, reforça.

 

Vínculo seguro

Assim como em outros períodos conturbados da história, que foram marcados por um retorno ao clássico, as coleções de alta-costura inverno 2021 também demonstram esse comportamento. “O vínculo associado à busca da segurança esteve presente em múltiplas expressões. Em Chanel a moda é apresentada como uma manifestação inequívoca dos inícios da marca nos anos 20 e 30, com o predomínio de tecidos macios, que sugerem a agradabilidade do toque e do olhar, a presença marcante do tweed em suas tramas sofisticadas de tule, fitas e rendas e a delicadeza as flores nos detalhes de botões e acabamentos nos vinculam à mente inventiva e sensível de Coco Chanel”.

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Imagem: Divulgação

A segurança esteve presente na seleção dos espaços das apresentações, como a Embaixada da Itália em Paris, escolha de Armani, assim como o Palais Galliera em Chanel ou ainda o Arsenale em Veneza para Valentino. “Um certo retorno ao criador e ao local de origem das grifes produz a necessária sensação de segurança tão imprescindível em momentos de crise como a que passamos nos últimos tempos”, finaliza Clotilde Perez.

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